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LEONISMOS

23
Set19

Uma família moderna: ser gay, casamento e afins

Leonardo Rodrigues

Quando era mais novo, no meu mundo de fantasia, se pusesse de lado a ideia de que nunca me iria assumir plenamente, achava que iria casar. Embora a génese do casamento e de conceitos como a monogamia sejam essencialmente contratuais, assentes em coisas muito práticas como saber quem verdadeiramente é o herdeiro legítimo das terras, nunca olhei o casamento dessa forma. Especialmente porque os conceitos evoluem. 

Via o casamento como um direito que conquistámos, como igualdade no acesso ao que o casamento legalmente garante e, naturalmente,  uma forma de celebração do amor - curiosamente a dimensão historicamente mais recente do conceito. Queria isso para mim, caso encontrasse um amor tal que o justificasse, e claro, poder fazer um statement. 

Muitos amigos questionam-me sobre isso, afinal são 3 anos de relação, e, em anos gay - sim, tal coisa existe mesmo - , é muito tempo. Tenho deixado bocas abertas quando respondo que não é algo em que pense, que já não é o meu objetivo, embora por vezes brinque com isso.

Foi nesta relação, e como as coisas evoluíram, que percebi algo fundamental, o compromisso importa, mas é aquele que não está escrito em lado nenhum, o compromisso que simplesmente é. Disso, para mim, brotou um lar, experiências e uma memória comum, e surgiu algo que sentimos ser uma família. 
 
Chamamos família à vontade e à concretização de estarmos juntos, os 3 - temos uma "filha" de 4 patas - , apesar do que a sociedade definiu como sendo o caminho a seguir. A diferença de idades, sermos de locais completamente distintos, termos famílias antagónicas, formações e experiências de vida completamente diferentes, criaram uma equação aparentemente difícil. Acontece que isso nunca foi um problema, somos nós que de alguma forma escolhemos o que é problemático. Aliás, acho que estas discrepâncias são de uma riqueza enorme, afinal conseguimos construir um espaço comum abraçando a diferença, onde podíamos simplesmente ser, estar e fazer,  com amor, partilha e segurança recíprocos. É algo que um contrato, embora não seja de menosprezar, não garante.
 
Noto que na comunidade gay existem três segmentos, os que querem ir contra tudo o que foi sendo estabelecido, despojarem-se de todo e qualquer rótulo e reescrever tudo, os que querem fazer tudo como está escrito, e aqueles que, como eu, adoram o meio termo. Na verdade precisamos dos três, tanto para impulsionar a mudança como para a estabilizar. Quando dizemos que não nos identificamos nem com isto ou com aquilo, estamos a identificarmo-nos com a não identificação. Há sempre um rótulo, somos e estamos sempre situados algures. Cabe-nos, claro, escolher o que nos assenta, traz paz, propósito e felicidade. Ninguém está certo ou errado.
 
Identifico-me como sendo monogâmico. Isto não é dizer que me acho moralmente superior nem que penso menos das relações que não o são, nem que não possa mudar de ideias. Resulta o que resultar. Também não significa que me declaro cego perante pessoas atraentes, só não alimento isso além de belas amizades. Enquanto esta ideia começa cada vez mais a ser vista como castração e prisão, percebi que para mim era o oposto, sentia liberdade em não ter de procurar nem de seguir ideias fugazes. No passado, senti sempre um receio de estar a perder qualquer coisa, e, claro, já inventaram um conceito também para isso FoMO - Fear of Missing Out. Agora encontro liberdade em perceber que estou com a pessoa certa, no momento certo, em não ter de procurar - pelo menos neste campo. 
 
Podemos culpar a tecnologia, e as imagens que nos chegam até certo ponto, isto não tem que ver apenas com podermos conhecer pessoas como encomendamos pizzas, é algo que transcende isso, é medo de estar desligado, de não ter lido uma notícia ou até de ter perdido um tweet. Cada vez mais sofremos com isto, à medida que os nossos telemóveis e estilos de vida nos impingem que podemos ser e ter tudo, nos fazem questionar o que temos e criam a necessidade de estar todo o lado ao mesmo tempo. 
 
A verdade é que tudo o que referi aqui são conceitos que evoluíram. Está tudo desconstruido de tal forma que podemos construir em cima disso o que quisermos. São tudo ideias que nos fazem agir e sentir. Até mesmo as noções que temos de nós próprios e dos outros. Heteros e não heteros estão em "relações modernas", com fronteiras esbatidas e moldáveis.
 
Considero que o segredo de uma relação, seja de que tipo for, é simples: honestidade e ausência do medo de estar a perder algo. A partir do momento em que abrimos porta a essa ideia é como se um buraco se abrisse num barco, inunda-nos. Ah, e não esqueçam que o próprio "para sempre", que tanto medo cria, será para sempre uma verdade até deixar de o ser. 
 
 

 

 

20
Set18

As relações não são para fracos

Leonardo Rodrigues

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Quando se escreve para os outros sobre as relações é sempre mais fácil falar sobre o lado cor de rosa com flores amarelas, mas deixamos - eu inclusive - as escritas do outro lado, apenas para nós, porque nos ajuda. Nem sempre são um texto inteligível e de agradável leitura, e talvez porque na verdade ninguém tem nada com isso. 

Quem diz que é bem mais simples ser solteiro e perseguir todos os pensamentos que aparecem na cabeça, tem a sua razão. As relações amorosas, tal como as nossas amizades, são de alguma forma um compromisso - uma coisa inventada por estes mamíferos que andam de pé - , e esta palavra parece medonha. Este compromisso não é estático, é um negociar constante, um ajuste de ideias, pensamentos e vontades. As relações são o meio termo por excelência. 

Vão existir dias em que não sabemos o que estamos a fazer, que nos esquecemos o que nos apaixona. Esquecemos que concordamos mais do que discordamos. Que as grandes coisas que fizemos - e fazemos - juntos são substituídas por todas as coisas pequenas que estão por fazer. Embora não existam dias iguais, por vezes parecem e fundem-se. Se acreditávamos que existiam coisas imperdoáveis, enganamos-nos. Há dias em que parece ser mais fácil sair porta fora. Mas também já foi mais fácil comer com as mãos, e agora come-se com talheres. 

Ficamos, não só pelo conforto, mas pela lucidez do que queremos e do que nos importa, pelo amor, carinho e amizade - sem medo de estarmos a perder alguma coisa. Porque criámos um espaço que não existe em mais lado nenhum. Porque os corpos sabem encaixar-se de noite. Porque por vezes olhamos para certas coisas e só um tem de verbalizar o que pensamos. Pode-se chorar, rir, sentir dor, partilhar os maiores disparates que nos apoquentam a alma e podemos despir-nos de todas as formas. Afinal de contas, as relações só morrem quando escolhemos morrer para as mesmas, sem ressuscitar. 

Já todos sabemos que não fazemos ninguém inteiramente feliz, e que nada nem ninguém o poderão fazer por nós. Ninguém nos pertence - a Oprah tem razão, é uma corrida desnecessária. Contudo, quando nos permitimos desenvolver este tipo de ligações, há aspetos das pessoas que se tornam um, mantendo a sua individualidade. Os casais que se mantêm no século XXI são uma verdadeira proeza da evolução.

 

 

 

21
Abr17

Ser vulnerável numa relação

Leonardo Rodrigues

As emoções que surgem em nós como sendo as piores, as mais arrebatadoras, capazes de desenterrar o que enterrámos bem fundo, podem ser as melhores. E, como tudo, é mais fácil de ver quando acontece com o outro. Não o digo com sadismo. Recentemente a pessoa que mais me importa teve um dia inesperado, aliás, completamente oposto do esperado. Eu sei que tudo depende do poder que concedemos às coisas, mas aquela importava-lhe especialmente. Eu, que acho que tenho sempre alguma coisa para dizer e embora arranje sempre alguma coisa reconfortante, fiquei demasiado self conscious e não tinha as palavras. Queria ajudar sem magoar, então dei por mim a concordar com a história que ele se impunha, sem lhe dizer os clichés necessários. Apercebi-me a tempo que não era necessário dizer nada de maior além de que é ok estar assim e que podia deixar-se estar. Mostrei-me presente e disponível para a vulnerabilidade dele. Estar lá e segurá-lo era tudo o que era necessário naquele momento, só depois é que lhe disse o que era a minha perceção do que estava a acontecer e o porquê de talvez não ser assim tão mau. Primeiro partilhar a dor em silêncio, depois já tinha as palavras. Esse momento de partilha foi muito poderoso para mim e acho que para nós enquanto casal. Dos momentos mais importantes. Termos permissão para sermos tão vulneráveis como momento nos exige, sem filtros, é intenso, mexe-nos por dentro e solidifica-nos. É amor.

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15
Fev17

Dizer amo-te

Leonardo Rodrigues

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Já tinha este post nos rascunhos há uns dias e hoje, após o dia que encheu o meu refeitório de corações, parece-me boa ideia concluir.

Há quem diga e julgue que os gestos falam mais alto do que as palavras. Como se alguma coisa pudesse significar mais do que palavras, do que uma palavra. Isso só é válido quando se banalizam as palavras, especialmente uma que, em tão poucas letras, pode significar tanto: amo-te. 

Por vezes agimos de uma forma que não queremos, da mesma forma que dizemos coisas que não sentimos. Agir contra a nossa natureza custa. Curiosamente, proferir o que realmente pensamos e sentimos também, sente-se uma pequena dorzinha.

Dizer amo-te, saíndo bem lá do fundo, é cirúrgico. Para mim, é quase como se sentisse que o meu peito se rasga para sair de lá dentro algo muito intimo. É sincero. Por outro lado, quando me é dito continua a acontecer algo de extraordinário em mim. Num episódio recente foram as lágrimas que começaram a cair apenas por o ouvir. Sem soluços, só um calor imenso. Afinal, o quão valioso é amar reciprocamente?

Pareceu-me que, à minha volta, de tanto se ouvir e dizer palavras como esta, retira-se o som das mesmas e, por consequência, perdem o seu significado e efeito. Criar um dia que manipule a economia das palavras e dos gestos deixa-me a pensar.

Olhem, sou por dizer menos e significar mais. Que se demonstre tudo, mas sem gastar a grandiosidade das palavras e das emoções. 

 

 

 

02
Fev17

Temos de desligar!

Leonardo Rodrigues

 

 

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Vivo numa relação de amor ódio com ficar sem bateria. Se houver algo que não pode esperar, é um pesadelo. Se não, é uma dádiva e acordarmos para coisas que nunca reparámos, como ver que o nome da estação Roma, refletida num dos vidros da carruagem é amoR.

Os tempos são insustentáveis. Deixar passar os reflexos da luz que dizem amoR não é grave, mas já deixar passar o Amor porque um retângulo convenceu-nos que a nossa vida está toda lá dentro, pode ser.

Os nossos telemóveis tornaram-se o centro, até dos jantares. Supostamente está lá tudo: as várias contas de email, o Facebook, o Messenger, o Snapchat, o Instagram, as aplicações onde se encontra o sexo e amor, as noticias, as memórias fotográficas, as notas, a agenda, o despertador, os mapas. Tudo, porra. E as notificações não nos largam, fazendo com que o trabalho, os colegas, os amigos, as estrelas e as desgraças se deitem connosco.

Sabem o que não está no telemóvel, nem mesmo no computador? As pessoas, de carne e osso, as conversas olhos nos olhos, o toque e os tiques, os cheiros dos lugares. O que vemos nos ecrãs são as representações disso. Temos de optar: representações ou os que temos ao nosso lado, à mesa e na cama?

Sinto que a ilusão de aproximação serve apenas para que a concretude das coisas se deteriore. O que sobra de nós, pode ser insuficiente.

Não proponho uma abolição de algo que melhora a vida moderna em muitos aspetos. Proponho, sim, que por vezes se deixe o telemóvel desligar ou usar o modo de voo. Desta forma conseguímos ouvir melhor quem está ao nosso lado e ver as nuvens sem photoshop que estão no céu.

 

22
Nov16

Quantas vezes vão casar?

Leonardo Rodrigues

O post não se compromete a responder ao mote, até porque são sempre mais as perguntas que as respostas. Dúvidas inquietantes surgem a toda a hora, em todo o lado e com tudo. Ontem foi a vez do programa The Big Picture ajudar a trazer novamente à tona várias questões, como faz o mar com a madeira.

Sempre me referi a Jacqueline Kennedy como Jackie O. Era algo que tinha presente sem saber porquê, só conhecia a trágica história de amor com o Mr. Kennedy. O O, descobri ontem, trata-se afinal de uma herança do segundo marido, o milionário Aristotle Onassis. Fiquei surpreendido, não gostei da ideia de imediato, afinal o amor deles tinha de ser para sempre.

À custa disto, ouvi: sabes lá quantas vezes vais casar. É verdade, sei lá eu, sabemos lá nós. Mas isto dá que pensar.

Além da vida, será que começa tudo a ter uma data de expiração cada vez mais próxima? Não sabemos bem, parece que sim, e, cada vez mais, entramos nas mais diversas esferas da vida - especialmente a amorosa - a acreditar que o fim está ao voltar da esquina. É possível que esteja, nessa ou na esquina do quarteirão seguinte ou noutra ainda mais distante. É um dado adquirido, uma lei superior: se tem um início tem um fim.

Escrevendo isso, quase que apetece legitimar a questão “porque é que se começa se vai acabar?”, mas isto é quase o mesmo que perguntar porque é que se vive se vamos morrer?

Não tenho muita confiança no “e viveram felizes para sempre”, mas tenho no “vivem felizes há muito tempo”. O para sempre é na verdade para enquanto durar, tal qual as verdades dos livros.

Quando estamos felizes no momento presente não pensamos nos casamentos do futuro. Eu estou feliz e não quero saber. A vida continua a provar-me que passado e futuro não são boas moradas para se viver. Se já estou autorizado a pensar nos meus desejos para 2017, o primeiro é estar mais presente, na vida, para mim e para quem está enquanto está. Tudo expira quando tem que ser. 

08
Nov16

Hora Certa (CONTO)

Leonardo Rodrigues

Na estação de comboios entendi, mudou. As pessoas e aquilo que constroem de imaterial não resiste ao tempo. Senti estas palavras naquele adeus diferente dos outros, num alívio só dele. No passado, as despedidas provisórias carregavam-se de saudade, nossa, mesmo que fosse fingida. Engana-se quem pensa que a honestidade é um esforço mais importante que o fingimento no amor. Neste último toque não nos sentíamos. Quando dois corpos se tocam e não se sente é porque um vai escapar. Soube que era um adeus para enquanto durássemos.

 

Permiti às portas fechar e ao comboio deslizar, embora me sentisse a tomar balanço, sem cair para a linha. Olhei-o fixamente do lado de fora, tão fixamente que perdi o foco. Acabou e sentia-me vazia, sem roupa nem sapatos. Para uma mulher isto ou é um alívio ou é como perder o chão. Não fui capaz de fazer o meu olhar acompanhar o fugir ruidoso da carruagem, só de continuar a olhar em frente, com o maxilar rígido e um olhar parado, preso a uma cabeça e a um corpo que não se queriam mexer. Estava convicta de que a mais pequena ação me faria balançar mais. Umas pessoas andavam para um lado, umas para outro e mais algumas sei lá para onde. Talvez conseguissem ver-me, talvez estivessem também elas com a visão turva, descalças.

 

O caminho até à casa que decidimos chamar nossa, no alto, com vista para a cidade sem mar, percorreu-se em piloto automático. Quando cheguei, a janela que dava para o largo estava aberta e dei por mim, por dor e por instinto, a tentar fechá-la. Queria tudo trancado, mas detive-me. Algures, num apartamento do bairro, tocava uma música tão triste que fazia o ar cheirar a chuva. O cheiro fez-me levar as mãos à cabeça e, desajeitadamente, pentear, com as mãos, os cabelos que começavam a ficar demasiado longos. Quis usar isto para justificar não ser desejada. Depois ri, o pensamento seguinte dizia-me que deus é francês com uma costela britânica. Naquele momento concluí que tudo começa e acaba com uma qualquer música francesa. Ouvia-a distante e distinguia apenas a palavra Paris no meio daquele choro eufónico em francês fluente.

 

Numa cidade onde o tropeçar em amor é constante, uns estão fatidicamente obrigados a desencaixar a metade que lhes pertence para que seja encaixada numa outra, ficando, em consequência, uma peça danificada que não torna a encaixar. Ninguém, se futuro houver, quer completar um puzzle com uma peça que ao mais suave toque se desfaz. Se assim acontece numa cidade onde se tropeça em amor, pensei, que seria de mim se, nesta cidade, para além da merda dos cães, a História só deixa tropeçar em saudade? Pensar isto provocou em mim uma causa que talvez tivesse como efeito o riso, não o permiti.

 

A canção foi-se diluindo, ficando cada vez mais longe, até parar. Foi o que nos aconteceu. Fechei tudo, voltei a mim, ao quarto onde não queria que luz nenhuma entrasse, ao colchão rijo, à imobilidade. As vozes retomaram ao meu dentro. Nunca as consigo ouvir a todas, fica um burburinho lá dentro que faz tremer o corpo. O tremor tem mais vontade sua que as vozes, mas não lhe posso gritar. A voz da insegurança consegue sempre ser ouvida, num falar gritado. Não és, não vais ser. Imploro-lhe silêncio, sei que tem razão. Sem os outros não somos. O branco é que deveria ter som, cheio de vento, mas é a escuridão que fala e fala.

 

Passadas umas horas sento-me aos pés da cama, fecho a mão esquerda, abro a direita e empurro-as, compulsivamente, uma contra a outra. Não consigo parar, cala as vozes. Há silêncio, rio novamente e não sei porquê.

 

Saí para ir ao encontro da noite. Parei apenas quando alcancei o primeiro banco do primeiro jardim que encontrei. Fiz por não me movimentar de forma louca, em vez disso contemplei a luz cansada do único candeeiro que me fazia companhia. Ali fiquei.

 

Acordei com o barulho de quem, naquela manhã de domingo, tinha família. Era verão, tinha passado a noite no banco de jardim, tal e qual uma daquelas pessoas que transformam o cartão no seu teto, lençol, cobertor, colcha e edredão. Não me importavam os olhares que, noutro dia, podiam ter sido meus. Que histórias que trazem tanta face anónima ali?

 

Porque é que os olho com curiosidade? Porque é que aquele casal está sentado a olhar em frente, com um olhar pesado? Que fez ele? É sempre ele. Porque é que a rapariga de cor de rosa anda em círculos à volta da estátua? Talvez a cabeça dela também não se cale. Porque é que o rapaz de preto contempla o chão como se soubesse que é para lá que vai? Porque é que me importo?

 

Importo-me porque agora sei que nada para, nem pessoas nem mundo. Doía tanto e nem eu tinha conseguido parar. Tudo acontece. Eu aconteço na mesma. O sol continuou a abrir a manhã e fez-se-me luz. Como fazem todos os dias, a hora certa, os candeeiros de rua.

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08
Jun16

De Blogger para Blogger: Luís Veríssimo, Desde 1979

Leonardo Rodrigues

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Virtualmente muita gente salta para a minha vida de carne e osso, a partir dos blogs, embora sejam muitos os scones prometidos, isso ainda não tinha acontecido. Até há uns dias e até o Luís, colaborador do dezanove, me despertar de uma sesta com um email a perguntar se podiam publicar algo que escrevi. Mal sabia eu que daqui surgiria uma amizade. Afinal, enquanto seguidor do seu blog, Desde 1979, já o conhecia mais ou menos, pensava é que era outra pessoa - deus, para não escrever Kikas, sabe que confundo os blogs todos. Depois de o conhecer pessoalmente, De Blogger para Blogger, lancei-lhe o desafio para ser o meu primeiro convidado. Conheçam, então, mais um pouco do Luís. 

 

Leonardo Rodrigues: Como estamos no Leonismos, comecemos por falar sobre mim. Que história é essa de eu ser mais divertido pessoalmente?

Luís Veríssimo: São as minhas primeiras impressões a falar. Quando te comecei a ler e a seguir julguei-te muito sério. Tanto que o nosso contacto inicial foi por email e foi extremamente formal. Daí ter julgado que eras muito mais velho do que realmente és. Depois quando te conheci vi um outro Leonardo: expansivo, extrovertido, divertido, falador, bem disposto e com um sentido de humor muito incisivo. Lia-te com cinzentismo, agora leio-te com todas as cores do arco-íris. Gosto muito mais deste Leonardo.

 

LR: Agora sim, quem é o Luís ou os Luíses?

LV: Sou o Luís de vários Luíses. Cheio de contradições e uma mistura dos vários Luíses que povoam e povoaram a minha vida. Não tanto como os heterónimos de Fernando Pessoa, que isso também já seria demasiada pretensão, mas mais como diria Mário de Sá-Carneiro: «Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro.». Um ser incompleto em busca da perfeição da vida que sabe que não existe.

 

LR: És a única pessoa que conheço que termina as mensagens com um ponto final. De onde vem a veia de bem escrever, por SMS, no blog e, agora, para o dezanove?

LV: Obrigado. És das poucas pessoas que diz que escrevo bem. Se bem que não necessito de elogios. Aliás, até nem lido lá muito bem com elogios.

Não sei de onde vem esta veia para a escrita… Sei que sempre gostei de ler e sempre gostei de escrever. Até cheguei a escrever poemas. Contudo a poesia na família está reservada para a minha prima Carla Veríssimo. Sei que gosto de brincar com as palavras. Mas, custa-me muito a escrever. As palavras custam-me a sair. Muitas vezes os textos estão estruturados na cabeça, mas não conseguem sair de lá para o teclado do portátil. Enquanto que se calhar alguém demoraria uns meros 30 minutos a escrever um texto, costumo demorar horas a escrever um post para o blog ou um artigo para o dezanove e, mesmo assim, é muito provável que contenha erros, ou que faltem vírgulas… *suspiro*
Em relação à pontuação é mania. Defendo a teoria que nós humanos, como animais de hábitos que somos, devemos escrever correctamente onde e quando quer que seja, tanto numa SMS, nas mensagens de um chat qualquer ou nas redes sociais. Porque se não escrevermos correctamente em situações de escrita rápida e automática acabaremos por, irremediavelmente, vir a não escrever bem num email profissional ou num texto importante e que requeira mais cuidado e atenção.

 

LR: Para além da escrita, existem duas coisas de que gostas muito e que, inclusive, acreditas que andam de mãos dadas, a comida e o sexo. Como é que estes se ligam?

LV: Aqui há umas semanas fiz uma entrevista a Adrian de Berardinis, o The Bear-Naked Chef, para o dezanove, em que ele dizia que “Para mim cozinhar é algo extremamente sexy. É um processo muito sensual. Escolhem-se os ingredientes certos e dá-se-lhes a maior atenção e carinho. É algo como fazer amor quando se prepara um prato. [...] a parte do cérebro que é estimulada pela comida é a mesma que nos excita sexualmente.”. Entendo a comida e o sexo um pouco desta forma. Para ambos é necessário uma relação e um enamoro, mesmo que essa relação seja ocasional ou mesmo estilo pastilha elástica em que se masca e se deita fora, mesmo para essas situações há um envolvimento. O sexo envolve-nos num estado tal de enebriamento, a comida também. Basta ver como as cenas de comida são retratadas em séries e filmes. São cenas extremamente difíceis de fazer, pois têm que transmitir aquele desejo pela comida que todos temos e normalmente, quando são bem feitas, esse desejo é semelhante ao desejo sexual. Lembrei-me agora assim de repente de três filmes onde isso acontece de forma mais ou menos encapuzada: “Feios, Porcos e Maus” (1976, de Ettore Scola); “O Cozinheiro, o Ladrão, a Sua Mulher e o Amante Dela” (1989, de Peter Greenway) e o inevitável “Nove Semanas e Meia” (1986, de Adrian Lyne). Todos eles filmam a comida e a própria relação com a comida de forma bastante muito sensual e sexual.

 

LR: E a paixão pelo cinema surgiu como?

LV: Não sei bem como é que surgiu. Sei que surgiu durante a infância. O meu irmão, eu e a minha mãe gostávamos de ver filmes e séries. Lembro-me que víamos religiosamente a “Missão Impossível”. Eu era o mais acérrimo. A partir de uma certa altura até passei a ir ao cinema sozinho. O gosto pelo cinema vem das imagens em movimento que são reproduzidas num ecrã e que têm a proeza de nos dizer algo, às vezes muito, outras vezes nada, mas dizem sempre algo, mesmo que o filme seja uma porcaria.

 

LR: Essa paixão precoce pelo cinema já te deixou em apuros…

LV: Já. *risos* Em miúdo fui apanhado uma vez a ver o “Alien - O 8.º Passageiro” (1979), o primeiro da saga. Devia ter uns 8 ou 9 anos, não sei ao certo. Sei que tinha visto a promoção que o filme ia dar e queria vê-lo, mas como ia dar tarde e continha cenas violentas não tive permissão dos meus pais. Esperei que toda a gente se deitasse e se deixasse dormir. Esperei. Quando julguei que era seguro, levantei-me e pus-me a ver o filme na sala. Passado um bocado um dos meus pais levantou-se e deu comigo. Zangou-se, deve-me ter dado umas palmadas no rabo, deitei-me, não vi o filme e ainda por cima tive pesadelos. Mas, adorei as imagens que vi, e, ainda hoje em dia, é um dos filmes de ficção científica preferidos.

 

LR: Dizes não ter alcunhas, mas há uma pessoa que te trata por Catrapiz. Fala-me de vocês.

LV: Já tive algumas alcunhas. A que me atribuíram na adolescência ainda me persegue. Amigos e antigos colegas da escola que frequentei na adolescência, ainda me tratam pelo nome de guerra que me atribuíram na altura.

Essa do Catrapiz não é bem uma alcunha. É mais um nome carinhoso pelo qual às vezes o meu companheiro me trata. Estamos juntos, vai fazer em Julho 8 anos, “and the livin' is easy”. Não muito mais a dizer… 

 

LR: Praticamente casado, o que é que te falta conquistar antes da crise dos quarenta?

LV: Tudo!!! Continuar a chatear os amigos e a família, ter um emprego estável (ou pelo menos um trabalho mais substancial), ter filhos (algo que sei não está nos planos imediatos e provavelmente nunca estará). Acho que no meu caso a crise dos 40 já começou…

 

LR: Voltaste em força ao mundo dos blogs, partilha lá a grande novidade connosco.

LV: Vou tentar - ainda não sei se consigo - criar uma rubrica regular sobre culinária, onde irei partilhar receitas, dicas, sugestões, etc. Nessa vertente da cozinha, vou convidar pessoas para partilharem a cozinha, a mesa e a comida comigo, poderão cozinhar, poderão ser suas as receitas, haverá espaço para tudo isso. Vamos ver no que dá.

 

Obrigado, Luís!

06
Abr16

O Sexo e a Capital: Amor à Primeira Vista

Leonardo Rodrigues

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Tenho amigos que defendem acerrimamente que deveria ter no blog uma rubrica semelhante ao Sex and the City, uma coisa à Bradshaw. Por dois motivos: conto-lhes tudo, eles contam-me tudo; tentamos chegar a verdades universais sobre o nosso caos amoroso.

 

Não sei se sei escrever sobre isso, mas enquanto pessoa que tem sexo na cidade, quiçá, talvez, tenha qualificações para tal, como milhões de outros citadinos com acesso à internet. Vou chamar a isto O Sexo e a Capital.

 

E como é que se começa? Bem, talvez não esteja a começar, embora os posts que mais leram tenham sido sobre outras temáticas, tenho um post intitulado de "Cio Emocional" e outro de "Estamos a ficar todos mais para o puta?" - sim, O Sexo e a Capital começou há mais tempo, só não tinha nome. Algumas opiniões mantenho, outras não e isso é crescer.

 

Para começar, nada melhor e mais cliché do que o amor à primeira vista. Já disse que não, agora digo que sim, mais ou menos isso.

 

Pensei, na ingenuidade da minha adolescência, que o "amor" só surgisse lá para 3ª vista. E assim deveria ser, pela questão prática de se saber como é a pessoa no dia-a-dia, fora do encontro, sem o vinho que lhe dá conversa, torna interessante e bom na cama.

 

Ao mesmo tempo que, teoricamente, deveria acontecer menos, não fosse a bagagem que uma pessoa acumula, acontece mais. Afinal de contas vamo-nos conhecendo cada vez melhor e nos tornando mais e mais seletivos, sabendo, desta forma, de antemão o que queremos e resulta e o que não. Já ninguém tem tempo a perder, e isto é uma faca de dois gumes.

 

A realidade também, confesso, é que não preciso de muito para me apaixonar. Existem pessoas que conheço, tudo impecável, mas não há faísca e não faço questão de repetir. Sejamos amigos. Outras que, apesar deste e daquele defeito, são tudo e muito mais, e, por algum motivo, fazem-me comprometer emocionalmente. De forma simples, amor à primeira vista, para mim, é quando se conhece alguém e queremos continuar a conhecer, apenas essa pessoa. Não é propriamente à primeira vista, que acho isso um tanto superficial, mas talvez à primeira conversa, ao primeiro toque.

 

O exemplo mais divertido dum destes episódios deu-se quando alguém, durante o nosso primeiro jantar, me decide contar uma história sobre um aranhão a que esteve uma hora a explicar o porquê do mesmo ter de morrer. Estivemos juntos durante 3 meses. Mais recentemente, outro caso, acho que foi ver como não-sei-quem faz a sua cara que dá conta de timidez: uma combinação de respiração contida, movimento de nariz e lábio.

 

Este "amor à primeira vista" é perigoso, complicado, geralmente fugaz. Da última vez que tal me aconteceu o cupido só teve tempo de atirar uma flecha sobre mim, não fosse isso que o gajo faz sempre.

 

Enquanto me deixo de devaneios e volto para a cama para continuar a curar a gripe, contem-me, acreditam na vossa definição de amor à primeira vista?

 

 

P.S. Tenho a agradecer à minha querida Laura Brás por me facultar os olhos para fotografia e por me incentivar, continuamente, a encontrar o amor para além da 1ª vista. 

26
Dez15

Resolução para 2016

Leonardo Rodrigues

Neste ano que quase passou, entre mil, tinha como resolução escrever mais e chateia-me que não o tenha feito. A verdade é que não tenho sempre o que escrever, embora, enquanto pessoa atenta que sou, por vezes tenha a felicidade de ouvir uma mãe a dizer à filha que a vai por a ganir no supermercado ou uma senhora a dizer ao marido que lhe há de fazer o dobro dos galos, mas não há muito que retirar dali a não ser: automedicar-me antes de decidir casar e ter filhos, ou não o fazer.

 

Quando tenho demasiado também costumo abster-me. Há uns tempos disse-vos que ia rumar a sul e lá fui, mas foi tão bom que, com demasiado pano para mangas, decidi guardar tudo para mim.

 

Como 2015 está a acabar, e sendo que encontrei a minha nova resolução no Porto, prefiro levar-vos para norte - o ponto cardeal que todos têm medo de perder - e contar-vos fragmentos das minhas visitas até à resolução para o ano novo.

 

As viagens que até lá tenho feito revelam-se sempre palco de novas descobertas e, mais recentemente, aprendizagens, afinal descobrir nem sempre implica aprender.

 

Na primeira visita, quando tinha apenas oito anos, escolho recordar-me apenas de ouvir 10 vezes uma palavra começada por "c", num jantar com amigos da família. Da boca da minha mãe, até à data, só tinha ouvido a que começa com "m" e, pela minha tia, a f word. Quero com isto dizer que não aprendi nada, apenas descobri uma palavra nova que não podia usar.

 

Na segunda, já maior de idade e com um doutoramento em palavras curtas com significados fortes, não aprendi mais, mas pude empregar tal vocabulário, ainda que mentalmente, ao descobrir que nunca vou entender como funciona o metro do Porto - possivelmente por casmurrice.

 

Na terceira, sendo que na maior parte do tempo só tive a companhia da chuva, ao caminhar, aprendi que o mais importante não é a companhia dos outros ou os níveis de pluviosidade, mas a minha capacidade de desfrutar de mim. Então, com um sorriso na cara, dançando com o vento e com a chuva, lá subi e desci tudo o que era rua e percorri os essenciais, da Ponte D. Luís à Livraria Lello.

 

Como as coisas só podem melhorar, nesta última e quarta visita, sentei-me finalmente no café Majestic e não poderia ter ficado mais satisfeito, especialmente com aquilo que tocava o pianista.

 

Mas só depois de cair o sol, quando fui para a outra margem olhar o Porto, é que viria a encontrar a minha resolução para 2016, e da forma mais caricata possível. Fui abordado por alguém que dizia querer saber as horas, embora as tivesse para me corrigir. Depois perguntou-me se era artista, sem saber ainda se era um assalto, ri-me e disse, com pouca convicção, que quase jornalista. Após alguma conversa e eu a não perceber que tipo de assalto era, ele diz-me ao afastar-se: hoje em dia toda a gente pode ser o que quiser ser, fica bem.

 

Senti-me parvo por ter pensado mal de alguém que tem a capacidade meter conversa com qualquer pessoa, em qualquer lado, e fiquei a pensar naquela frase até hoje, o que me fez decidir que este ano o meu único desejo, mais do que nunca, é ser quem quero ser.

 

Acho que foi a ausência de consciência de quem quero ser que me levou a adiar ou desistir de certas coisas este ano. Penso que não estou sozinho. Da última vez que desistiram das vossas resoluções estavam a ter em consideração a pessoa em que se querem tornar ou a vozinha que diz que não são capazes?

 

Como sei que têm de comer tudo o que encontrarem com açúcar até à nova dieta, vou calar-me com o que me diz um grande amigo meu, "só tens que fazer o que é para fazer a seguir", sem desculpas - essas podem mandar se "f", para o "c" e para a "m".

 

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