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LEONISMOS

21 de Março, 2020

O Mundo Precisava Respirar

Leonardo Rodrigues

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Ontem saímos pelas 22h para passear a nossa cadela na Mata de Alvalade, e foi incrível. Podia estar a passear à noite num monte alentejano, mas era mesmo no parque ao lado do principal Aeroporto do país.

Estou em isolamento profilático há pouco mais de uma semana, e é com muito pesar que acompanho todos os dias o crescente número de infetados e, consequentemente, mortos. Estou de luto com o Mundo, mas quero tentar alhear-me das mortes e refletir convosco o que está a acontecer de bom e o que podemos retirar disto, ressalvando que em nada reduz o sofrimento atual e futuro. Nada voltará a ser igual, é o que espero.

Escolhi este título porque o mundo precisava mesmo de respirar, e paradoxalmente é uma doença que nos afeta principalmente as vias respiratórias que o está a permitir. O parar e reduzir das atividades humanas está a permiti-lo. Há dias escrevia numa rede social qualquer que somos o sal da terra, mas não temos de o ser.

Reparem que numa questão de dias o ar renovou-se, tornou-se respirável. Não é a minha sensibilidade respiratória que o diz, mas a NASA. As águas de Veneza, que correm nos canais outrora poluídos pela atividade intensa dos barcos, estão mais claras. 

Não imagino um deus como a bíblia ou a igreja o fazem, mas não consigo fugir ao pensamento de que este é o grito que a natureza expele das suas profundezas para dizer que basta! Assim o parece.

A Terra esgota-se. A água doce seca, o solo fica árido, o ar empestado, o peixe esgota-se, as árvores demoram a crescer. Não há infinito por mais que a natureza renove se continuarmos no mesmo loop de consumo e poluição. Ao mesmo tempo sabemos que, ao mudarmos a forma como vivemos, a natureza regenera-se, e nós com ela.

Escolhi Lisboa para viver há 7 anos, e há 7 anos que os meus problemas respiratórios se intensificaram. Sou hipersensível à poluição e calhou-me viver num bairro próximo de um Aeroporto que, até há 3 semanas, tinha voos a cada 2 minutos.

Ontem o ar respirava-se novamente, as árvores podiam emanar o seu perfume sem a necessidade de trabalharem exaustivamente para compensar os escapes dos aviões e dos carros da Av. do Brasil, Gago Coutinho e 2ª circular.  Reduziram-se os sons dos aviões e estão de volta os pássaros que cantavam com a coordenação de uma orquestra, nas árvores que também lhes pertencem. A terra a sarar.

Foi-nos dito que umas atividades são mais importantes que outras, que há muito que não pode ser feito a partir de casa, que temos de fazer tudo de um certo modo. Vemos agora que não é assim.

Penso também que profissões tidas como menores são hoje o pilar para que possamos ficar protegidos nas paredes das nossas casas. Estamos nas mãos dos agricultores já que não produzimos, generalizo, o que comemos. De quem recolhe o lixo e assegura a higiene das nossas cidades. De quem limpa os espaços públicos, que muitas vezes não vemos. Quem está na caixa dos supermercados e das farmácias. Quem assegura a distribuição dos bens essenciais à nossa vivência e sobrevivência. São heróis, tal como os médicos e enfermeiros que estão a enfrentar a batalha das suas (e nossas) vidas.

Espero que retirem disto que não somos nada sem os outros; que a vida em comunidade e liberdade envolve um respeito que está a ser posto à prova; que percebam a importância do ar que respiramos neste momento - vão à janela e percebam que não era assim há uma semana; que não há profissões menores - apenas menorizadas pelo sistema; que a família, os amigos e animais são de uma importância extrema sem os quais a vida custaria muito mais; que a comida não cresce nas prateleiras de supermercado; que os atos individuais importam no contexto da comunidade.

Ficarei terrivelmente desapontado se depois do que vou chamar oportunidade, em que muitos milhares estatisticamente já estão mortos, voltarmos ao mesmo, ao cada um por si, à poluição e consumo desenfreado, a menorizar o outro, e a um mundo em que a educação e a saúde não sejam a prioridade. 

Lembrem-se que foi declarado estado de emergência climática a torto e a direito e que há um Acordo de Paris, mas pouco impacto teve. Hoje, devido a um microorganismo, criam-se movimentos extraordinários e tomam-se medidas extremas, no contexto de emergência e calamidade, para salvaguardar a vida humana. Porque é agora, está aqui. Meus caros, as alterações climáticas também são agora, e falta pouco para entrarem na fase de propagação exponencial.

O mundo precisava respirar e precisará sempre. Fernando Pessoa disse, num dos seus poemas, Senhor, falta cumprir-se Portugal. Eu presunçosamente digo, Senhores, falta cumprirmo-nos, que o dinheiro não se come.