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LEONISMOS

LEONISMOS

19
Jan17

Não volto para o armário, deitei-o fora

Leonardo Rodrigues

Recentemente colocou-se a hipótese de irmos passar as nossas férias à minha ilha. Após a última conversa que tive com um membro da família, decidimos manter o plano inicial e rumar para norte.

Recuando no tempo, assim que tomei consciência de quem era, mesmo que não tivesse um conceito de antemão, passei também a ter um segredo. O ambiente à minha volta exercia uma influência castradora. E, no fundo, eu próprio também não queria ser quem era.

Os tempos mudaram, assisti a uma transformação das pessoas e das mentalidades à minha volta. Mas, mais do que os progressos dos outros, orgulho-me do meu percurso. Nem no emprego necessito fingir ser quem não sou. Saí e deitei o famoso armário fora para viver a minha vida.

Fruto disto, e porque a vida assim quis, no ano passado passei a ter a meu lado alguém que considero digno de apresentar a toda a família. Ontem uma pessoa, que surpreendentemente não foi a mãe, pediu-me para nos comportarmos como amigos - impôs esta condição - , isto porque não queria ter de dar explicações à filha.

Há uma ideia em que insisto há muito: as crianças são uma tábua rasa. Se a elas forem transmitidos bons valores e conhecimentos, mais fácil será de não perpetuar preconceitos. Não me cabe a mim educar filhos que não são meus. Ainda assim, pergunto-me, que educação é aquela que não assume que existe mais do que o preto e o branco, escondendo os lindos tons de cinzento que os separam?

Algo que é fundamental compreender por todos é que os casais gays não pretendem fazer em público, em família, mais do que os heteros fazem. Não há cá tratamentos especiais. O escárnio de algumas pessoas está em fazermos o mesmo, como tocar numa mão, agarrá-la, fazer uma carícia na cara ou dar um beijo. O afeto não pode ser um tabu.

E, com isto, não posso compactuar, mesmo que amenizem dizendo que "aceitam o meu modo de vida, mas que...". E são muitos os "mas que" que só servem para andarmos mais devagar. 
Enquanto casal homossexual, não temos, nem vamos, agir de forma diferente da um casal heterossexual. Desculpem, mas já não andamos com nenhuma cruz às costas.

22
Nov16

Quantas vezes vão casar?

Leonardo Rodrigues

O post não se compromete a responder ao mote, até porque são sempre mais as perguntas que as respostas. Dúvidas inquietantes surgem a toda a hora, em todo o lado e com tudo. Ontem foi a vez do programa The Big Picture ajudar a trazer novamente à tona várias questões, como faz o mar com a madeira.

Sempre me referi a Jacqueline Kennedy como Jackie O. Era algo que tinha presente sem saber porquê, só conhecia a trágica história de amor com o Mr. Kennedy. O O, descobri ontem, trata-se afinal de uma herança do segundo marido, o milionário Aristotle Onassis. Fiquei surpreendido, não gostei da ideia de imediato, afinal o amor deles tinha de ser para sempre.

À custa disto, ouvi: sabes lá quantas vezes vais casar. É verdade, sei lá eu, sabemos lá nós. Mas isto dá que pensar.

Além da vida, será que começa tudo a ter uma data de expiração cada vez mais próxima? Não sabemos bem, parece que sim, e, cada vez mais, entramos nas mais diversas esferas da vida - especialmente a amorosa - a acreditar que o fim está ao voltar da esquina. É possível que esteja, nessa ou na esquina do quarteirão seguinte ou noutra ainda mais distante. É um dado adquirido, uma lei superior: se tem um início tem um fim.

Escrevendo isso, quase que apetece legitimar a questão “porque é que se começa se vai acabar?”, mas isto é quase o mesmo que perguntar porque é que se vive se vamos morrer?

Não tenho muita confiança no “e viveram felizes para sempre”, mas tenho no “vivem felizes há muito tempo”. O para sempre é na verdade para enquanto durar, tal qual as verdades dos livros.

Quando estamos felizes no momento presente não pensamos nos casamentos do futuro. Eu estou feliz e não quero saber. A vida continua a provar-me que passado e futuro não são boas moradas para se viver. Se já estou autorizado a pensar nos meus desejos para 2017, o primeiro é estar mais presente, na vida, para mim e para quem está enquanto está. Tudo expira quando tem que ser. 

12
Out16

"Quando tinha a tua idade é que era bom"

Leonardo Rodrigues

Quando viajo até à infância lembro-me sempre de algo novo, por vezes empolgante, mais frequentemente devastador. Uma que tenho visitado com frequência é o desejo de crescer, ser mais velho, ter isto e um pouco mais daquilo. Queria, essencialmente, deter O segredo. Achava que esse segredo iria permitir entender o puzzle todo e dar-me a certeza no olhar.  Os adultos até podem ter comprado O Segredo de Rhonda Byrne, como eu, mas na realidade ninguém sabe o que está a fazer. Não há manual de instruções nem nunca houve. O livro é engodo e a vida também. Mesmo sem saber tanto quanto fingem, numa coisa não mentiram, quando tinha a tua idade é que era bom, sempre nostálgicos. Pois era. Por mais que tudo corresse mal, o mundo era um lugar mágico, onde as incertezas eram só portais para um local ainda mais mágico e misterioso. Tudo estava para acontecer. À minha volta parece apenas que à medida que o tempo passa deixamos de saber dançar junto destes portais, afinal agora como temos certezas e sabemos o que fazer, não há lugar para istos e aquilos e nada pode ser diferente. O segredo, no máximo, é que não há segredos desta natureza e que, nada sendo resultado da concretude das coisas, está tudo a um sopro de voltar ao pó. Temos de dançar e ser crianças. Era bom.

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 Uma fotografia mais nítida não foi possível até a data de redação deste post

12
Set16

E passaram 3 anos

Leonardo Rodrigues

Não tenho escrito. Alguns amigos mais próximos sentem falta, e vão-me dizendo. Confesso que, secretamente, desejo que pessoas que não conheço também tenham reparado.

 

Existem posts que me têm parecido a desculpa ideal para regressar, mas nunca tenho coragem para os acabar, parecem-me sempre tão incompletos, sem palavras ou emoções suficientes. Acho que é por estar feliz, ocupado. Quando o tempo abunda e a felicidade escasseia, aí sim, cuspimos todas as palavras que conhecemos num grito.

 

Agora que decidi compreender o meu signo, tenho ainda uma outra justificação: mais do que perfecionismos e leonismos, os carneiros são de desculpas. Vivem muitos momentos intensamente, como se não houvesse amanhã. Depois, adiam a vida como se o fim não estivesse anunciado à priori. Simplificando, com o que me disseram, "os carneiros atiram-se para as coisas e deixam-nas pela metade". Claro que prefiro responsabilizar o signo em vez de a mim, embora me comprometa a contrariá-lo.

 

Agora que me justifiquei, hoje tenho um pretexto e vou colocar um ponto final neste post. O pretexto foi-me oferecido, espero que gratuitamente, pelo Facebook. O dito leva-nos a memória, para ser a nossa memória. Ontem lembrou-me que há extamente três anos, depois de uma viagem que me trouxe para viver na capital, o meu dia começou no Rossio com um muffin e um café - sem que, para meu espanto, houvesse necessidade de o tratar por bica.

 

Fechou-se um ciclo, sinto-o, e, como estou a escrever, sei que começa um outro onde tantas outras coisas vão acontecer. Ainda antes de ontem celebrava dois meses, que se querem mais, de namoro. Em breve, uns bons dois anos de blog. Hoje posso ainda celebrar o meu 70º post. 

 

O saldo, com todas as vicissitudes - palavra cara para pedras no sapato - , é positivo. Mesmo o tempo não parando por nada, levando e trazendo tudo como a corrente, há algo que escrevi há uns tempos no post "Obrigado, Lisboa" que continua a fazer sentido e penso que me será sempre atual: "Obrigado, Lisboa, por me dares amores, desilusões e amigos que são agora família. Obrigado por abalares convicções e por ajudares a sedimentar outras. Obrigado por me ensinares vulnerabilidade e humildade. E, mais importante do que tudo, obrigado por me deixares tratar a bica por café." Como o ponto final que ali está pertence a uma citação e me comprometi a colocar um ponto final a sério escrevo esta frase para esse efeito.

 

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 3 anos depois

 

15
Jun16

Eu sou gay

Leonardo Rodrigues

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Estamos em 2016, isto deveria significar que progressos civilizacionais aconteceram. Li e reli notícias, escrevi uma, vi vídeos, li crónicas e comentários, mas ainda não sei bem o que penso do que aconteceu em Orlando, do que está a acontecer no mundo, connosco. Desta coisa de matar porque alguém é, age, pensa e sente diferente de nós. Não sei porque não percebo. Já tentei fazer o exercício de me colocar nos pés de um agressor, não fez sentido.

Hoje não me cruzei com ninguém igual a mim na rua, no autocarro nem no trabalho. Ouso arriscar que tínhamos todos pensamentos, tons de pele, roupas e, quem sabe, impressões digitais diferentes. Não senti que tinha de violar o espaço de ninguém, apontar um dedo, e dizer "essa cor de pele não serve, fica-te melhor o tom acima". Não me diz respeito. Não tive nada que ver com o facto ter olhos castanhos, quanto mais com os olhos do vizinho. A maior parte das nossas caraterísticas transcendem-nos. Sim, tomamos decisões aqui e ali, mas para nós, não temos de o fazer pelos outros. Quanto mais apontar uma arma! Puxar o gatilho! Tirar uma vida que não é nossa!

De tudo para o que olhei, há algo que me persegue continuamente, ver os SMS que alguém no clube Pulse trocou com a mãe, depois de lhe dizer que a amava, para lhe dizer que ia morrer. Nem teve a oportunidade de se despedir. A imagem que me vem à cabeça é poderosa, mais forte do que o miúdo que apareceu morto na costa de Kos. Arrepia-me. Neste lugar consigo colocar-me. Ver-me obrigado a abandonar a vida, o que amo e quem amo porque alguém prefere odiar, sem dizer adeus. Dos medos que me restam, esse é um.

Disse que era Charlie, mas não era, era apenas pela liberdade de expressão. Hoje escrevo que, para além de "ser" olhos castanhos, sou gay - sou mesmo. Ser gay, para alguns é algo de aberrante, mas é só gostar de pessoas mais parecidas comigo. Também demorei a aceitar a simplicidade disto. Para além do que prefiro, sou tantas mais coisas e quero sê-las todas, sem volta e meia sentir necessidade de dizer que as sou porque mataram alguém por ser. Não quero amanhã dizer que sou Lisboa. Quero que sejam e deixem ser tudo, desde que isso não interfira com o bem estar e a Vida de outros.

Não têm de dizer que são gays, não têm de ser nada para além do que são, mas a verdade é que, hoje, manter uma hashtag nos trending topics é manter um assunto a ser discutido. Já que o massacre não foi mais importante do que futebol nas capas dos jornais que, pelo menos, seja debatido. 

26
Mai16

Dia do Riso, todos os dias

Leonardo Rodrigues

Ontem um trio maravilha, do qual fazia parte, decidiu sentar-se numa esplanada no Saldanha para beber café e comer um pastel de nata - coisas que um lisboeta tem de fazer para não perder a nacionalidade - , conversar, depois rir e olhar para quem passava. Centenas passaram por nós, de carro e a pé, posso garantir que éramos dos poucos a rir, os únicos conscientes que pode não haver amanhã ou daqui a uma hora. Os restantes caminhavam para alguma coisa, com ar sério, como se o arroz fosse queimar se não andassem cabisbaixo, com cara de poucos amigos, perdidos em pensamentos. Os portugueses estão tristes. Aquele português, com os olhos na Calçada, muitas vezes também sou eu. Há quem não se lembre de como chegou a casa por cansaço, por embriaguez, eu por vezes não me lembro porque vim em piloto automático, perdido em pensamentos. A minha querida professora e companheira de loucura, da esplanada, acenou enquanto ria para algumas pessoas. A maior parte não viu ou não conseguiu entender. Porque haveria alguém de sorrir a um estranho, estaria ela doida? Uma senhora, talvez a pessoa com o olhar mais triste que vimos, parou. A doida disse-lhe, É dia do riso, ria. Primeiro não conseguiu compreender e olhou para toda a gente na mesa, ri para confirmar. Ela riu de volta, acho que até murmurou um agradecimento. Talvez não lhe estivesse a ocorrer porque o dia foi mau, mas, para além de ser linda, tinha um sorriso fabuloso, desenhado exclusivamente para ela. Talvez aqueles segundos lhe tenham servido para perceber que se o arroz queimar, pode fazer massa, que vai bem com tudo. Nem sempre me lembro das opções. Ontem, por exemplo, acordei chateado porque uma entrevista no dia anterior tinha corrido mal, já tinha decidido: sofrer o dia todo. Depois, ainda de manhã, ao beber um café no Miradouro da Portas do Sol, percebi, com ajuda, que independentemente do que estivesse a acontecer na minha vida tinha a liberdade de estar ali, rodeado de gente, enquanto o sol insistia em dar cor aos meus braços e pernas, com um ventinho que passava para atenuar o processo. Até os pássaros cantavam para relembrar a primavera. Para poder apreciar o momento, só tive de retirar uma coisa que já não estava acontecer da equação. Reescrevam também a vossa equação e depois dêem um boa gargalhada - sem café não será a mesma coisa! 

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Prova da maravilhosa manhã de ontem

 

22
Mai16

E se você fosse a Catarina Martins?

Leonardo Rodrigues

Quinta-feira passada, estava eu à espera do meu 726, a torrar numa paragem nos Anjos, quando ouço o seguinte "O autocarro já deveria ter passado", seguido dum, Mas "Eles só fazem o que querem". Eles quem, senhora? É redutor ver mal em tudo. O autocarro não estava atrasado, passou na hora que era suposto, essa hora era desconfortável apenas porque o não gostar de esperar e o calor intenso são um mal comum. Não tem nada a ver com Eles - a entidade que serve para tudo. Tenho amigos da América Latina que viveram meses suficientes em Lisboa para elogiarem a nossa rede de transportes. Não damos valor nem pensamos sobre o que temos, só no que não temos. Chateamos-nos com o que não importa. Não é só a saudade que nos está no sangue, no sangue está também uma forma de pensar pequenina e mesquinha. Isso assenta em frases como: Eles só fazem o que querem. Antes de enviarem informações à boca para articular tamanhas barbaridades, formulem questões simples como: eles quem? Não estou aqui para me chatear com os meus momentos Carris - costumo ter conversas maravilhosas com estranhos. Estou chateado com a polémica do E se fosse consigo?/Catarina Martins. Podia começar com um simples não é uma coincidência assim tão grande, afinal ela trabalha lá ao pé, mas alguém no Facebook já tem resposta para isso, a resposta é: Eles não trabalham. Não sei se escrevem isto para obterem gostos de estranhos ou se acreditam no que escrevem. Se acreditam, já tiveram a humildade de questionar as vossas crenças? A ideia de político na maior parte das cabeças é de alguém mau, que nada numa piscina de dinheiro. Como em qualquer outra coisa, há bom e há mau. As pessoas estão chateadas porque uma cidadã - uma deputada também o é - conhecida do público interveio. Pegam em qualquer coisa, até num auricular, para retirar mérito a uma grande atitude. Perante tal situação, acho que não me iria questionar se um agressor tem um auricular, alguns têm Mercedes. Acho que isto acontece porque se o que a deputada pelo BE fez for legítimo então os políticos talvez não sejam assim tão maus, talvez alguns até queiram realmente ajudar - isto enquanto alternam entre a piscina de notas e a Assembleia, claro. Outras das questões aqui acho que tem que ver com a forma de tratamento. A Catarina, por educação, mesmo a tremer, disse consigo. É uma pergunta legítima, e se fosse consigo? Há uns anos, perguntei a um miúdo, que estava a gozar com o único negro na escola, se a pele fosse dele, se era ok eu chamar-lhe de preto e coisas que não me atrevo a escrever aqui. Ele disse-me que não e encolheu-se no assento do autocarro. Na minha presença, pelo menos, nunca mais o vi a insultar ninguém. É uma pergunta eficaz. Aos que a chamam de atriz, explico-vos, somos todos atores e nós também representamos vários papéis na sociedade. A Catarina enquanto "atriz" social, cumpriu o seu papel mais elementar de todos, o de humana. O "E se fosse consigo?" não é um programa de apanhados. Acredito que mais do que entreter, a Conceição Lino pretende ajudar a educar. Educar não cabe apenas aos pais nem às escolas. Os media, querendo ou não, também o fazem. Muito boa gente neste país não estaria a pensar questões relacionadas com bullying, homofobia e obesidade se não fosse o programa. Ao verem o que acontece - pode acontecer, como preferirem -  consciências despertam para a realidade, formam-se. Isto leva, espero eu, à ação. Não têm de intervir a ponto de colocarem a vossa segurança em risco, podem só chamar alguém que possa, tudo é melhor que ignorar. Quando estava no secundário, por exemplo, notava que muitas ações eram condicionadas pelo que era "fixe". Imaginem se respeitar, defender os outros, pensar de forma aberta se tornar "fixe" graças a programas destes. E vá, se estivessem no lugar da Catarina Martins, intervinham ou socorriam-se de pensamentos como "entre marido e mulher não se mete a colher"? Isso é o que importa.

15
Mai16

Hoje volto ao Caderno e à Caneta

Leonardo Rodrigues

É assustador o quanto dependemos das novas tecnologias. Sei que as uso muito, constantemente, mas raramente as penso como uma dependência por mais de cinco segundos. Afinal, se quero ver um filme ou uma série estou a uma pesquisa de distância. Com a música, sem a qual não sei viver, o mesmo. Se, ao andar por aí, vejo algo que considere digno de moldura, basta-me deslizar o dedo para cima num ecrã bloqueado e imortalizar o que quer que seja. Em frações de segundo posso fazer um segundo durar para sempre. É sedutor. Se estou a ter um pensamento digno de best seller internacional basta-me abrir as notas do telemóvel e anotar. Achava eu. A maior parte dos meus posts começam com pensamentos muito desconexos oriundos das notas do meu telemóvel, muitas menos vezes do meu caderno que se fecha a elástico. Para nele escrever, tenho de o ter comigo juntamente com uma caneta. Um smartphone está sempre comigo, na mão, no bolso ou na cabeceira. Tudo parece jogar a favor da tecnologia. Até nos faz acreditar que melhora a nossa relação com o mundo. Isto, claro, até o dia em que nos falha. Hoje falhou-me. Apagou todas as minhas estimadas notas. Estavam lá às centenas. Centenas de coisas que considerei, literalmente, dignas de nota pura e simplesmente desapareceram. Antes, confesso, fotografava mais do que escrevia, agora escrevo mais do fotografo, porque isto permite-me guardar o que vai cá dentro, em vez do que vai lá fora. Esta manhã, senti-me a perder parte do meu dentro. Pensar que nunca mais vou pensar ou escrever o que perdi exatamente da mesma forma assusta-me. Senti-me um drogado sem droga. Fiquei mais meia hora na cama a adiar o meu primeiro café. Depois lembrei-me que em tempos ouvi que o suporte mais durável era o papel - pensem num papiro. Na altura, ri-me, qual papel quando temos CD's, pens e discos eternos? Hoje, para além de me apetecer substituir uma maçã de dois anos pela amora com seis, decidi que as coisas dignas de nota, daqui para a frente, têm de ser Anotadas em Papel, com Caneta. Pode ser que assim durem vidas.

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Na Gulbekian

09
Mai16

Pertenço oficialmente ao bairro

Leonardo Rodrigues

É verdade, uns meses depois de regressar àquele que foi o meu primeiro bairro lisboeta, só agora sei que faço novamente parte do mesmo. Isto não tem nada que ver com mudanças oficiais de morada, de centro de saúde, com poder dar indicações de olhos fechados, muito menos com receber a correspondência nesta nova casa. São pequenas coisas que ocorrem, como sorrir para alguém que vemos todas as manhãs na rua ou a senhora da padaria sentir que pode desabafar connosco sobre o seu dia. Várias pequenas grandes coisas destas fazem-me sentir confortável, enquadrado, mas há uma que me toca especialmente: chegar ao café e ver alguém a se dirigir para a máquina sem eu ter que abrir a boca. Gosto de que o bom dia seja dado quando me estão a colocar o café à frente, só aí é que os meus grandes olhos castanhos se abrem. Para além disto há mais um detalhe que gosto particularmente, só quando já estou a beber o café, depois de o ter mexido, é que me dão o pacote de açúcar a que tenho direito. Sabem que não bebo café com açúcar, mas que o levo para casa. Eles reparam, eu também. 

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Esta fotografia foi tirada no Café da Garagem. Infelizmente ainda não consegui encontrar a casa ideal para estes lados da cidade.

06
Abr16

O Sexo e a Capital: Amor à Primeira Vista

Leonardo Rodrigues

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Tenho amigos que defendem acerrimamente que deveria ter no blog uma rubrica semelhante ao Sex and the City, uma coisa à Bradshaw. Por dois motivos: conto-lhes tudo, eles contam-me tudo; tentamos chegar a verdades universais sobre o nosso caos amoroso.

 

Não sei se sei escrever sobre isso, mas enquanto pessoa que tem sexo na cidade, quiçá, talvez, tenha qualificações para tal, como milhões de outros citadinos com acesso à internet. Vou chamar a isto O Sexo e a Capital.

 

E como é que se começa? Bem, talvez não esteja a começar, embora os posts que mais leram tenham sido sobre outras temáticas, tenho um post intitulado de "Cio Emocional" e outro de "Estamos a ficar todos mais para o puta?" - sim, O Sexo e a Capital começou há mais tempo, só não tinha nome. Algumas opiniões mantenho, outras não e isso é crescer.

 

Para começar, nada melhor e mais cliché do que o amor à primeira vista. Já disse que não, agora digo que sim, mais ou menos isso.

 

Pensei, na ingenuidade da minha adolescência, que o "amor" só surgisse lá para 3ª vista. E assim deveria ser, pela questão prática de se saber como é a pessoa no dia-a-dia, fora do encontro, sem o vinho que lhe dá conversa, torna interessante e bom na cama.

 

Ao mesmo tempo que, teoricamente, deveria acontecer menos, não fosse a bagagem que uma pessoa acumula, acontece mais. Afinal de contas vamo-nos conhecendo cada vez melhor e nos tornando mais e mais seletivos, sabendo, desta forma, de antemão o que queremos e resulta e o que não. Já ninguém tem tempo a perder, e isto é uma faca de dois gumes.

 

A realidade também, confesso, é que não preciso de muito para me apaixonar. Existem pessoas que conheço, tudo impecável, mas não há faísca e não faço questão de repetir. Sejamos amigos. Outras que, apesar deste e daquele defeito, são tudo e muito mais, e, por algum motivo, fazem-me comprometer emocionalmente. De forma simples, amor à primeira vista, para mim, é quando se conhece alguém e queremos continuar a conhecer, apenas essa pessoa. Não é propriamente à primeira vista, que acho isso um tanto superficial, mas talvez à primeira conversa, ao primeiro toque.

 

O exemplo mais divertido dum destes episódios deu-se quando alguém, durante o nosso primeiro jantar, me decide contar uma história sobre um aranhão a que esteve uma hora a explicar o porquê do mesmo ter de morrer. Estivemos juntos durante 3 meses. Mais recentemente, outro caso, acho que foi ver como não-sei-quem faz a sua cara que dá conta de timidez: uma combinação de respiração contida, movimento de nariz e lábio.

 

Este "amor à primeira vista" é perigoso, complicado, geralmente fugaz. Da última vez que tal me aconteceu o cupido só teve tempo de atirar uma flecha sobre mim, não fosse isso que o gajo faz sempre.

 

Enquanto me deixo de devaneios e volto para a cama para continuar a curar a gripe, contem-me, acreditam na vossa definição de amor à primeira vista?

 

 

P.S. Tenho a agradecer à minha querida Laura Brás por me facultar os olhos para fotografia e por me incentivar, continuamente, a encontrar o amor para além da 1ª vista. 

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