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LEONISMOS

29 de Maio, 2020

Por que razão a cor da pele assusta tanto? - "sou dos pretos bons"

Leonardo Rodrigues

Shanique_Green

No ano passado, em Nova Iorque, fui abordado na zona de Greenwich Village por uma afroamericana que me disse: tira-me uma foto. Naquele dia, especialmente frenético, não fosse a celebração dos 50 anos do Pride, eu pedi sempre para fotografar as pessoas que me captavam o olhar. Mas ela disse: tira-me uma foto. Acho que devo ter feito uma cara de confusão porque isto não é nada habitual para quem fotografa, o que a levou de imediato a dizer: não te preocupes, eu sou dos pretos bons. Meio baralhado com esta informação, nem pedi para que mudassem de posição, fotografei em contra luz, com uma parametrização e enquadramento que achei lamentável assim que vi as fotografias. 

Dei-lhe o meu telemóvel porque quis adicionar-me no Instagram e afastou-se, eu com um nó na garganta. Enviei a foto, mas não expliquei nada. Hoje, quase um ano depois, decidi mandar-lhe mensagem para clarificar o nosso encontro, apresentamo-nos, e descobri que se chama Shanique Green. Confidenciou-me que sentiu que deveria justificar a abordagem, de forma a que não me assustasse. Isto não é justo, passei aquele dia a abordar pessoas, brancas, pretas, amarelas, com máscaras, e nunca me ocorreu dizer: não te preocupes, eu sou dos brancos bons.

A alguém da minha família aconteceu algo semelhante, numa paragem de autocarro em Lisboa, quando um grupo de rapazes pretos aproximou-se e, antes de qualquer coisa, disseram: não tenha medo, não a vamos assaltar, queríamos apenas saber se o autocarro x já passou.

Regressei a esta fotografia e a esta memória porque George Floyd morreu, após ter um joelho no pescoço durante 7 minutos. Floyd estava imobilizado e algemado, não oferecia resistência e estavam 4 para 1. O seu crime foi corresponder à descrição de alguém que tentou usar uma nota falsa num supermercado. Poderá dizer-se que o seu crime foi apenas nascer preto? Em breve saberemos. Seja como for, o polícia foi muito além daquele que é o seu trabalho. Tirou uma vida que não lhe pertencia, ignorou a falta de ar, e tem de ser punido.

O racismo produz os efeitos de qualquer outra fobia. E quem o vive todos os dias, acaba por o internalizar. Isto não é vitimização, acontece porque há um problema de base: a intolerância pela diferença, pela minoria. O ódio. Por vezes penso que o medo vem do facto de todas a minorias juntas formarem uma maioria, quiçá um atentado ao homem branco.

A realidade é que não existem vidas nem cores mais importantes do que outras, ninguém deve ter de implorar pela vida ou por ar, nem sentir que tem de dizer que é bom porque receia causar uma certa impressão. 

Não faço ideia de qual será o desfecho desta revolução em Minneapolis, mas que podem fazer para que estes atentados acabem de vez?

 
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Friendly New Yorkers 😎

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27 de Maio, 2020

5 anos depois, o Blog Leonismos ganhou uma nova cara

Leonardo Rodrigues

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Já alterei o logo há algum tempo, mas só agora, que pretendo regressar ao Blog, vou falar desta alteração. O Logo evoluiu bastante, do desenho de um miúdo a preto e branco, que queria partilhar pensamentos com o mundo, para este. Numa entrevista para a antiga rubrica "Meet the Blogger" do blog do Sapo, o Pedro perguntou-me que tipo de livro seria o blog se estivesse à venda nas livrarias: hoje devo saber menos, sei apenas que é um espaço onde os temas se diversificaram, e que eu próprio muitas vezes nem sei como manter.

Depois de 5 anos, chegou a hora de lavar a cara, de o tornar mais meu, de representar o que foi e está por escrever. Devia-o a quem me lê e a mim, mas também ao blog que é quase uma entidade própria, uma extensão de mim. Gostaria que as estrelícias, que remontam às minhas origens madeirenses não passassem despercebidas. 

Quem já me acompanha nestas andanças sabe que este blog já me deu muito, nomeadamente, pessoas e experiências. Cresci com o blog e o blog cresceu comigo. E escrevi, sempre que tive tempo e me senti capaz, sobre quase tudo. Do homem que passou de leitor a namorado. Da primeira vez que pisei Itália ou a Euroasia. Da cadela que "raptei" de uma árvore no Alentejo.

Faço sempre um balanço positivo dos números, que podem parecer pouca coisa se comparados com os gigantes. Saber que algumas coisas que escrevi chegaram a dezenas de milhar de pessoas é incrível. Outras chegaram a centenas. E qualquer número está bem.

Quando escrevo, embora muitas vezes com intervalos inaceitáveis, gosto de imaginar uma sala onde falo para quem quer ouvir. Falar para 50 já é maravilhoso, então falar para 20.000 é indescritível. Se estivesse numa sala que não a do Sapo Blogs não conseguiria partilhar vivências ou pensamentos tão pessoais, sendo que, mesmo tendo escolhido comunicação academicamente, falar para grandes públicos sempre envolveu colocar uma máscara bem pesada. 

Pelas mensagens, emails e comentários sei que temos aprendido bastante uns com os outros, que pratiquei o verbo da moda: influenciar. Acho que o mais comovente foi quando uma mãe me disse que a tinha ajudado a compreender o filho gay; outra disse-me que devido à partilha da minha experiência com o bullying sentou-se à mesa com as filhas para que elas nunca o fizessem a alguém; e, claro, quando um homem de 50 anos disse que leu um texto meu n vezes até decidir divorciar-se, para ser quem sempre soube que era. Não menos importante, é verdade que por vezes escrevo sobre produtos e marcas em que acredito, o que sempre me pareceu bem desde que seja verdadeiro e relevante para quem me lê.

Então, ano após ano, mantenho o blog, partilho o que me faz sentido quando acho que vale a pena, os meus Leonismos, com pessoas que nem sempre venho a saber do nome, muito menos a cara. Em breve, com o que espero que vá ser um regresso digno desse nome, irei partilhar o porquê dos meus intervalos inaceitáveis. Obrigado por se manterem desse lado. 

 

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13 de Maio, 2020

Primeiros Voos da Primavera

Leonardo Rodrigues

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Embora há muitos anos por Lisboa, continuo a sentir-me um rapaz do campo, especialmente com o desenrolar da primavera. Devem dizer melhor em inglês, mas é qualquer coisa como "podem tirar o rapaz do campo, mas não podem tirar o campo do rapaz" - mesmo com uma paixão imensa pela cidade. 

Durante este período de isolamento, saímos apenas para passear a cadela e ir ao supermercado. Felizmente, temos um parque maravilhoso ao lado de casa para estes passeios, onde passeamos ao lado de vários tons de verde e castanho, que se unem, com o compasso do cantarolar dos diferentes pássaros.

Têm sido estes pequenos passeios que tornam esta quarentena suportável psicologicamente e, tenho vindo a constatar, agradável. Ainda há uns dias descobri que neste parque , além de um refúgio para pássaros, existe uma reserva de pirilampos, que dão espetáculos lindíssimos de noite numa procura incessante por uma luz que os complemente.

Talvez pela proximidade, as virtudes do parque estendem-se aos bairros circundantes. 

Esclareceram-me recentemente que os casulos por baixo de uma varanda, e de onde provinham sons enigmáticos eram, afinal, ninhos de andorinhas. Hoje, no regresso a casa, deparo-me com uma atividade anormal de andorinhas ao pé dos mesmos.

Decidi parar para desfrutar da dança, não demorando a aperceber-me que não era uma coreografia qualquer, onde andorinhas adultas vão e voltam dos ninhos, como que a exibir-se - especialmente porque não levavam alimento. Estavam, na verdade, a fazer algo tão ou mais importante do que nutrir. As andorinhas adultas lançavam reptos para que as andorinhas mais novas saíssem do ninho, dessem às asas e voassem. 

Assim o fizeram, ora à vez, ora todas juntas, uma vezes com maior coordenação, outras com diferentes altitudes e muitas pausas para recuperar o pio. Isto é a vida da Primavera a acontecer por si. 

Ter a possibilidade de assistir a isto foi como se me trouxessem o campo de volta, ao mesmo tempo que memórias como a primeira vez que consegui andar de bicicleta sem as rodinhas - e que caí quando percebi que não havia ninguém a segurar; ou o parto da minha primeira cadela - , que soube tudo o que tinha de fazer, primeiro cortar os cordões umbilicais, depois limpar e aconchegar. Primeiro dar ferramentas, depois deixar ser.

Não somos assim tão diferentes dos outros seres, nem das estações. Estamos, quiçá, apenas distantes do instinto que é e que sabe, seja no campo ou na cidade. 

Ficará claro que filmar não é o meu forte, mas partilho convosco este momento que acrescentou algum animo a estes dias de confinamento. 

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