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LEONISMOS

21
Mar20

O Mundo Precisava Respirar

Leonardo Rodrigues

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Ontem saímos pelas 22h para passear a nossa cadela na Mata de Alvalade, e foi incrível. Podia estar a passear à noite num monte alentejano, mas era mesmo no parque ao lado do principal Aeroporto do país.

Estou em isolamento profilático há pouco mais de uma semana, e é com muito pesar que acompanho todos os dias o crescente número de infetados e, consequentemente, mortos. Estou de luto com o Mundo, mas quero tentar alhear-me das mortes e refletir convosco o que está a acontecer de bom e o que podemos retirar disto, ressalvando que em nada reduz o sofrimento atual e futuro. Nada voltará a ser igual, é o que espero.

Escolhi este título porque o mundo precisava mesmo de respirar, e paradoxalmente é uma doença que nos afeta principalmente as vias respiratórias que o está a permitir. O parar e reduzir das atividades humanas está a permiti-lo. Há dias escrevia numa rede social qualquer que somos o sal da terra, mas não temos de o ser.

Reparem que numa questão de dias o ar renovou-se, tornou-se respirável. Não é a minha sensibilidade respiratória que o diz, mas a NASA. As águas de Veneza, que correm nos canais outrora poluídos pela atividade intensa dos barcos, estão mais claras. 

Não imagino um deus como a bíblia ou a igreja o fazem, mas não consigo fugir ao pensamento de que este é o grito que a natureza expele das suas profundezas para dizer que basta! Assim o parece.

A Terra esgota-se. A água doce seca, o solo fica árido, o ar empestado, o peixe esgota-se, as árvores demoram a crescer. Não há infinito por mais que a natureza renove se continuarmos no mesmo loop de consumo e poluição. Ao mesmo tempo sabemos que, ao mudarmos a forma como vivemos, a natureza regenera-se, e nós com ela.

Escolhi Lisboa para viver há 7 anos, e há 7 anos que os meus problemas respiratórios se intensificaram. Sou hipersensível à poluição e calhou-me viver num bairro próximo de um Aeroporto que, até há 3 semanas, tinha voos a cada 2 minutos.

Ontem o ar respirava-se novamente, as árvores podiam emanar o seu perfume sem a necessidade de trabalharem exaustivamente para compensar os escapes dos aviões e dos carros da Av. do Brasil, Gago Coutinho e 2ª circular.  Reduziram-se os sons dos aviões e estão de volta os pássaros que cantavam com a coordenação de uma orquestra, nas árvores que também lhes pertencem. A terra a sarar.

Foi-nos dito que umas atividades são mais importantes que outras, que há muito que não pode ser feito a partir de casa, que temos de fazer tudo de um certo modo. Vemos agora que não é assim.

Penso também que profissões tidas como menores são hoje o pilar para que possamos ficar protegidos nas paredes das nossas casas. Estamos nas mãos dos agricultores já que não produzimos, generalizo, o que comemos. De quem recolhe o lixo e assegura a higiene das nossas cidades. De quem limpa os espaços públicos, que muitas vezes não vemos. Quem está na caixa dos supermercados e das farmácias. Quem assegura a distribuição dos bens essenciais à nossa vivência e sobrevivência. São heróis, tal como os médicos e enfermeiros que estão a enfrentar a batalha das suas (e nossas) vidas.

Espero que retirem disto que não somos nada sem os outros; que a vida em comunidade e liberdade envolve um respeito que está a ser posto à prova; que percebam a importância do ar que respiramos neste momento - vão à janela e percebam que não era assim há uma semana; que não há profissões menores - apenas menorizadas pelo sistema; que a família, os amigos e animais são de uma importância extrema sem os quais a vida custaria muito mais; que a comida não cresce nas prateleiras de supermercado; que os atos individuais importam no contexto da comunidade.

Ficarei terrivelmente desapontado se depois do que vou chamar oportunidade, em que muitos milhares estatisticamente já estão mortos, voltarmos ao mesmo, ao cada um por si, à poluição e consumo desenfreado, a menorizar o outro, e a um mundo em que a educação e a saúde não sejam a prioridade. 

Lembrem-se que foi declarado estado de emergência climática a torto e a direito e que há um Acordo de Paris, mas pouco impacto teve. Hoje, devido a um microorganismo, criam-se movimentos extraordinários e tomam-se medidas extremas, no contexto de emergência e calamidade, para salvaguardar a vida humana. Porque é agora, está aqui. Meus caros, as alterações climáticas também são agora, e falta pouco para entrarem na fase de propagação exponencial.

O mundo precisava respirar e precisará sempre. Fernando Pessoa disse, num dos seus poemas, Senhor, falta cumprir-se Portugal. Eu presunçosamente digo, Senhores, falta cumprirmo-nos, que o dinheiro não se come.

15
Mar20

#FiquemEmCasa

Leonardo Rodrigues

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Pensei voltar ao blog por melhores motivos, mas vou falar do COVID19 porque, segundo os números, estamos a pouco mais de uma semana da situação de Itália onde, como na guerra, já têm de escolher quem vive e quem morre, ao mesmo tempo que têm dificuldade em armazenar todos os corpos. Este vírus vai mudar a forma como vivemos, pensamos o nosso espaço, trabalhamos e priorizamos coisas como a saúde, educação, alimentação e até, arrisco, as alterações climáticas.

É já inegável que o COVID se propaga com maior velocidade e mata mais do que a gripe, e que não enfrentávamos nada semelhante há pelo menos 50 anos.

Neste momento, a meu ver, com toda a informação que temos dos sucessos de Macau, Hong Kong  e Singapura, e o motivo do fracasso de outros, o Governo está apenas a adiar tomar medidas verdadeiramente restritivas e eficazes. Basta saber que, de acordo com Joaquim Ferreira da Faculdade de medicina, estimamos precisar de 5000 ventiladores e temos 500. Portanto cabe-nos a nós, se tivermos essa possibilidade, isolarmo-nos.

O tratamento, neste momento, consiste em aliviar os sintomas, mas não o conseguirão fazer para todos se não invertermos a curva JÁ, ONTEM. Na ausência de tratamento concreto, e com uma vacina a quase dois anos de distância, a atual escassez de recursos, a nossa maior arma é o isolamento social.

Se for verdadeiramente impossível ficarem casa, mantenham a etiqueta respiratória e as medidas de higiene adequadas, não viajem, evitem aproximar-se e cumprimentar pessoas - especialmente profissionais de saúde, ou alguém com notória infeção respiratória.

É tempo de organizar. Ligar 300 502 502 caso necessite esclarecer dúvidas relacionadas com a baixa por ajuda a familiares. Só em caso de sintomas, como febre, tosse, dores de garganta e cabeça, e falta de ar é que deve ligar para a linha SNS 24 - 808 24 24 24. Irão ser devidamente aconselhados. Por favor, não se desloquem fisicamente aos Centros de Saúde só com dúvidas e antes de triagem à distância. 

Se precisarem de ir ao banco, usem as plataformas online. Se puderem trabalhar a partir de casa, trabalhem. Se não tiverem de usar transportes públicos, não usem. Se precisarem falar com a família e amigos, caramba, alguns até têm mais do que um telemóvel. Se tiverem comida e medicamentos essenciais, não açambarquem. Ao açambarcar supermercados e farmácias, estão a criar oportunidades de contágio e sobretudo a impedir que outras pessoas tenham acesso a bens essenciais e medicamentos  - que esgotam rapidamente.

O paracetamol será como sempre um medicamento essencial para termos em casa, mas não precisam de comprar 100 euros desse artigo - como relatou-me uma amiga farmacêutica, já à beira da rotura, como os profissionais de saúde, com utilização das farmácias como supermercado.

É tempo também de serenidade, com certeza, é verdade. O vírus mata mais a população idosa, mas é egoísta da nossa parte não fazermos a nossa parte porque os outros é que serão afetados. 

Criei uma conta de Instagram @FiquemEmCasa, no seguimento do movimento "Stay The Fuck Home", como o meu contributo, em português, para este momento que exige tanto de nós.

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Ficar em casa, além dos benefícios óbvios na propagação de um vírus letal, permite-nos fazer coisas que temos adiado: conviver com a família, ler um bom livro, cuidar de nós, aprender algo novo. E, espero também, que nos faça perceber que fazemos parte de um todo precioso, frágil e esgotável. Como disse a Green Peace:

Quando a última árvore tiver caído,
quando o último rio tiver secado,
quando o último peixe for pescado,
vocês vão entender que dinheiro não se come.

A vida é mais importante. 

Informação em tempo real e de qualidade: http://www.cidrap.umn.edu/covid-19/maps-visuals

06
Fev20

Desmistificar os problemas da ZER, Zona de Emissões Reduzidas, em Lisboa

Leonardo Rodrigues

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Eu sou o primeiro, ou segundo, a apontar o dedo a qualquer iniciativa que faça mal à cidade onde vivo.  A iniciativa ZER - zona de emissões reduzidas - da Câmara Municipal de Lisboa só faz bem. Como todas as coisas que fazem bem, é preciso explicar o porquê -  um pouco como explicar a sopa, às crianças.

Primeiro, temos de deixar claro o que poderá continuar a ter livre acesso: ambulâncias, veículos de pessoas com mobilidade reduzida, residentes, cuidadores, detentores de avença de estacionamento e garagens, carros elétricos e motociclos. Além destes, poderão estacionar: veículos de cargas e descargas, tomada e largada de passageiros e outros lugares especiais.

O dístico de residente tem o limite de dois registos por agregado familiar, é verdade. Se têm mais de dois carros, e vivem na baixa de Lisboa, os meus parabéns pelo dinheiro extra do carro que vão vender - e condolências pela perda.

Sobre a calamidade de um máximo de 10 matrículas de visitantes, por cada residente... Bem, quantos de vós, lisboetas, têm 10 veículos particulares diferentes com visitas, por mês? Se forem muitos, poderão conviver nas novas ruas sem carros, sentados num dos novos bancos à sombra de uma árvore recém plantada.

No que diz respeito aos danos para o comércio, sem querer ir buscar exemplos à Holanda nem à vizinha Espanha, pensemos na rua Augusta que também já teve carros a circular e hoje parece que foi feita para ser pedonal. O comércio, assim como os negócios locais, não morrem - florescem.

Quanto à loucura das ciclovias, ficou claro que os lisboetas aderiram assim que passámos a tê-las juntamente com uma oferta pública de bicicletas. Não é só por saber que as viagens de Gira ultrapassaram um milhão em 2019, mas porque também ando de bicicleta e vejo a diferença. Lisboa tem 7 colinas, contaram bem, ainda assim as zonas onde não é preciso um motor para circular abundam. 

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E se estão a perguntar que maldade vai a Câmara fazer, eu digo: devolver-nos a cidade. Com medidas que almejam reduzir a poluição do ar e sonora, com menos carros e mais transportes públicos; expansão da rede ciclável - 5,7km - ; mais árvores e arbustos; passeios mais largos, e ruas só para pessoas - 4,5ha de espaço pedonal; entre outras, explorem aqui.

Se tiverem oportunidade, apareçam nas sessões de esclarecimento/debates a anunciar, de forma a contribuir para melhorar este projeto, que só peca mesmo por ser tardio e por não abranger ainda mais zonas da cidade. Estarei por lá a fazer campanha por mais árvores. 

Poderá ser estranho, mas, recuando no tempo, podemos ver um Terreiro do Paço e uma Praça dos Restauradores que serviam de estacionamento. Já dizia o Pessoa, primeiro estranha-se, depois entranha-se. Só depois disto é que estaremos mais próximos do mérito da Capital Verde Europeia. 

 

01
Out19

Feng Shui: Sentirmo-nos bem em casa

Leonardo Rodrigues

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Há muito que pensava escrever este post sobre sentirmo-nos bem em casa, creio que os asiáticos resumiriam o que vou escrever em feng shui, mas como pouco sei desta arte lá tenho de escrever sobre a minha experiência. 

Mais do que em deus ou outras entidades, eu acredito em energia. É intangível, mas sente-se, está em todo o lado. A expressão ambiente ou clima de cortar à faca é isso, uma energia que de tão forte, pela negativa, é palpável, e quase dá para manipular, cortar, no mundo físico. 

Acho que à semelhança de todas as leis, dogmas e coisas do domínio do extraordinário, é possível simplificar e encontrar algo ali para todos. Estes estados e sentimentos são uma troca entre o que está fora e está dentro.

Nos sítios por onde tenho passado, quer seja ao nível da casa, faculdade ou trabalho, geralmente consigo encontrar a minha paz junto de janelas ou onde existem plantas ou árvores. Por vezes quero estar longe de todos, outras junto de pessoas com quem me sinto em sintonia. 

A casa nem sempre tem de ser o espelho de como nos sentimos, por vezes tem de ser de como nos queremos sentir. Afinal de contas a casa é um refúgio onde estamos protegidos, nas paredes e objetos que carregam memórias, conversas e histórias. Quando não me sinto bem em casa, sei que é altura de mudar algo, adicionar e, mais frequentemente, remover. 

Confesso que cá em casa somos os três um pouco desarrumados, especialmente a cadela. Ter a casa limpa e arrumada não chega. Onde as coisas estão faz toda a diferença. E por isso proponho, porque já o fiz, olhar e perguntar: onde é que as coisas fazem sentido estar? Há sempre um sítio mais inteligente, funcional e confortável para tudo o que temos em casa. Desenhar ajuda. Mais frequentemente do que queríamos admitir, por vezes esse sítio é o lixo, e descobrimos na forma de desapego. 

Para mim, além das mudanças que fazem sentido, o que mais conforto me trouxe foram as luzes. Agora temos mais focos de luz quente, mas menos intensa, o que cria uma atmosfera mais homy e acolhedora. Quanto aos móveis, numa das configurações, descobri ser possível a partir da poltrona observar apenas as árvores do jardim em frente. Na ausência de mar, é o verde que apazigua e é esse verde que trouxe para dentro de casa na forma de plantas, árvores e flores. 

E é assim, mudando isto e aquilo, umas vezes mais fora do que dentro, que podemos encontrar o equilíbrio, assuma o nome e forma que assumir.

25
Set19

Drage, o Éden na Cróacia - o nosso vinho de verão

Leonardo Rodrigues

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Ele sempre insistiu para que escrevesse mais, mas como escrevo melhor sobre o que me é muito próximo, nem sempre é fácil deixar disponível online o que faz parte da nossa memória, mas lá vou abdicando desse egoísmo.

No ano passado, para celebrarmos o nosso aniversário achei que uma roadtrip surpresa pela Croácia até ao Montenegro seria uma boa ideia. E, agora que talvez comece a partilhar estas experiências, quero começar pela melhor, aquela que vai ficar connosco para sempre, a descoberta de uma terriola que metaforicamente será para mim o nosso vinho de verão - explicarei depois.

As melhores coisas desta vida acontecem por acaso, as pessoas que aparecem e os sítios que nos visitam sem o nosso controlo. Na imensa costa que é a Croácia são tantos os pedaços de terra à beira mar pitorescos, que nos perdemos em escolhas. Íamos a caminho de Split quando o acaso se deu. Surgiu-lhe o impulso para voltar à direita e seguir a placa "Drage", que podia passar despercebida a quem percorre a Croácia de lés a lés.

Queríamos, sobre todas as coisas, fazer outra paragem impulsiva para nos atirarmos à água quente antes do sol se pôr totalmente, mesmo com o céu que não fazia convites. Era ali ou só no dia seguinte. Não podíamos esperar. Deixámos o carro no primeiro sítio que se apresentou como estacionamento viável, entrámos num caminho ladeado por pinheiros, tirámos a roupa e não havia mais a fazer senão saltar para a água.

Estávamos numa pequena baía pacata, a inspirar uma sensação que ainda não consigo por nome, dentro de uma água quente com a transparência do cristal, rodeados de uma vista para ilhas que nem devem estar habitadas, pinheiros de um verde lindo e as rochas brancas que adornam a Costa. Tivemos a ilusão de tudo ser nosso e de estarmos sozinhos no paraíso. Não havia passado nem futuro, só nós e aquilo. 

Quando chegou à altura de fazer o percurso inverso, de volta a Zagreb, decidimos que estava tudo visto e que voltaríamos à terra que nos abraçou. Era para ser uma noite que passaram a duas.

Encontrámos uma cabana maravilhosa online no cimo de uma montanha. O que não sabíamos era da dificuldade para lá chegar, sem indicações e estrada digna de tal nome. Guiados apenas por uma voz com um sotaque inglês estranho e o pouco caminho que avistávamos à nossa frente. No escuro, sem vermos mar nem montanha, acabamos por encontrar o flash do telemóvel do anfitrião, a imaginação dispersou-se. Ou seria a melhor experiência ou iríamos ter uma morte digna de filme.

Não morremos, a casa era tudo, e o acordar para aquela obra de arte da natureza compensaram as peripécias anteriores. Isso, o cheiro da montanha e do mar, quando o Homem pouco interfere, e o café bem forte. Já o pequeno almoço reforçado fez-se no Marko e o almoço na pizzaria Ivan - os almães sabem escolher bem os sítios. 

É impossível não fantasiar com uma vida assim, uma cabana, uma terra para cultivar, a natureza e o homem que amamos. É nestes momentos que a mente divaga e pensa, e se isto fosse para sempre nosso? E se pudéssemos beber do vinho de verão em todas as estações? E se trocássemos tudo para também vender também fruta e mel à beira da estrada. E se tivéssemos um barco para pescar e nos encontrarmos no mar? E se? Ai, as possibilidades.

O nosso último pôr do sol fez-se com o som do piano, não pudemos evitar as lágrimas, que não surgem com facilidade. Estávamos a dizer adeus ao vinho do verão. Digo isto, e agora explico-me, porque o sítio e as memórias do lugar colaram-se, para mim, a uma canção popularizada por Nancy Sinatra, Summer Wine. 

"Strawberries, Cherries and Angels kissing spring, my summer wine is really made from all these things." O vinho que bebemos sabia a isso, a comida que se improvisava na nossa cozinha com poucos ingredientes também, naturalmente que era o sabor da nossa experiência e do amor, o verdadeiro vinho de verão. Não há outro. 

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Alojamento Drage.jpgAs fotos da casa são da propriedade dos donos e foram extraídas do Booking.

23
Set19

Uma família moderna: ser gay, casamento e afins

Leonardo Rodrigues

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Quando era mais novo, no meu mundo de fantasia, se pusesse de lado a ideia de que nunca me iria assumir plenamente, achava que iria casar. Embora a génese do casamento e de conceitos como a monogamia sejam essencialmente contratuais, assentes em coisas muito práticas como saber quem verdadeiramente é o herdeiro legítimo das terras, nunca olhei o casamento dessa forma. Especialmente porque os conceitos evoluem. 

Via o casamento como um direito que conquistámos, como igualdade no acesso ao que o casamento legalmente garante e, naturalmente,  uma forma de celebração do amor - curiosamente a dimensão historicamente mais recente do conceito. Queria isso para mim, caso encontrasse um amor tal que o justificasse, e claro, poder fazer um statement. 

Muitos amigos questionam-me sobre isso, afinal são 3 anos de relação, e, em anos gay - sim, tal coisa existe mesmo - , é muito tempo. Tenho deixado bocas abertas quando respondo que não é algo em que pense, que já não é o meu objetivo, embora por vezes brinque com isso.

Foi nesta relação, e como as coisas evoluíram, que percebi algo fundamental, o compromisso importa, mas é aquele que não está escrito em lado nenhum, o compromisso que simplesmente é. Disso, para mim, brotou um lar, experiências e uma memória comum, e surgiu algo que sentimos ser uma família. 
 
Chamamos família à vontade e à concretização de estarmos juntos, os 3 - temos uma "filha" de 4 patas - , apesar do que a sociedade definiu como sendo o caminho a seguir. A diferença de idades, sermos de locais completamente distintos, termos famílias antagónicas, formações e experiências de vida completamente diferentes, criaram uma equação aparentemente difícil. Acontece que isso nunca foi um problema, somos nós que de alguma forma escolhemos o que é problemático. Aliás, acho que estas discrepâncias são de uma riqueza enorme, afinal conseguimos construir um espaço comum abraçando a diferença, onde podíamos simplesmente ser, estar e fazer,  com amor, partilha e segurança recíprocos. É algo que um contrato, embora não seja de menosprezar, não garante.
 
Noto que na comunidade gay existem três segmentos, os que querem ir contra tudo o que foi sendo estabelecido, despojarem-se de todo e qualquer rótulo e reescrever tudo, os que querem fazer tudo como está escrito, e aqueles que, como eu, adoram o meio termo. Na verdade precisamos dos três, tanto para impulsionar a mudança como para a estabilizar. Quando dizemos que não nos identificamos nem com isto ou com aquilo, estamos a identificarmo-nos com a não identificação. Há sempre um rótulo, somos e estamos sempre situados algures. Cabe-nos, claro, escolher o que nos assenta, traz paz, propósito e felicidade. Ninguém está certo ou errado.
 
Identifico-me como sendo monogâmico. Isto não é dizer que me acho moralmente superior nem que penso menos das relações que não o são, nem que não possa mudar de ideias. Resulta o que resultar. Também não significa que me declaro cego perante pessoas atraentes, só não alimento isso além de belas amizades. Enquanto esta ideia começa cada vez mais a ser vista como castração e prisão, percebi que para mim era o oposto, sentia liberdade em não ter de procurar nem de seguir ideias fugazes. No passado, senti sempre um receio de estar a perder qualquer coisa, e, claro, já inventaram um conceito também para isso FoMO - Fear of Missing Out. Agora encontro liberdade em perceber que estou com a pessoa certa, no momento certo, em não ter de procurar - pelo menos neste campo. 
 
Podemos culpar a tecnologia, e as imagens que nos chegam até certo ponto, isto não tem que ver apenas com podermos conhecer pessoas como encomendamos pizzas, é algo que transcende isso, é medo de estar desligado, de não ter lido uma notícia ou até de ter perdido um tweet. Cada vez mais sofremos com isto, à medida que os nossos telemóveis e estilos de vida nos impingem que podemos ser e ter tudo, nos fazem questionar o que temos e criam a necessidade de estar todo o lado ao mesmo tempo. 
 
A verdade é que tudo o que referi aqui são conceitos que evoluíram. Está tudo desconstruido de tal forma que podemos construir em cima disso o que quisermos. São tudo ideias que nos fazem agir e sentir. Até mesmo as noções que temos de nós próprios e dos outros. Heteros e não heteros estão em "relações modernas", com fronteiras esbatidas e moldáveis.
 
Considero que o segredo de uma relação, seja de que tipo for, é simples: honestidade e ausência do medo de estar a perder algo. A partir do momento em que abrimos porta a essa ideia é como se um buraco se abrisse num barco, inunda-nos. Ah, e não esqueçam que o próprio "para sempre", que tanto medo cria, será para sempre uma verdade até deixar de o ser. 
 
 

 

 

14
Fev19

Sair do Armário aka Coming Out, o nosso maior ativismo

Leonardo Rodrigues

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Há dias decidi ver um especial do Netflix, com a Ellen Degeneres. Mais para o fim, e desculpem o spoiler, ela conta um sonho com um pássaro que tinha a sua forma e que foi colocado numa gaiola. Esta gaiola, entre as grades, tinha espaço suficiente para o pássaro sair. Este pássaro também fui eu, o meu namorado, todos nós que damos cor ao arco-íris e à sigla LGBTI, e também qualquer pessoa que não se permite viver e aceitar plenamente perante os preconceitos de outros. Chegará o dia em que precisaremos retirar os rótulos que nos colaram e que nunca nos pertenceram. 

Vejo ainda muita indignação quando alguém, seja ministra ou ator, com uma plataforma e uma voz no espaço público, diz "sou gay" ou alguma outra caraterística que não encaixa. O argumento disfarçado de não fóbico - e que assume várias formas - é: não tenho nada que ver com isto, eles que o sejam na intimidade, eu não ando por aí a dizer que sou hetero, nem muito menos marcho por isso. 

Os meus mais sinceros parabéns. Não fosse nascermos num contexto em que a sociedade patriarcal e heteronormativa, sem dizer nada a ninguém, já espera certos definições para todos nós. Não são os heterossexuais que têm de se sentar com os pais e amigos e explicar que estão cansados de fingir ser quem não são, e, que embora tenham medo de ficar sem chão, precisam de viver plenamente a sua sexualidade, e o amor.

Nós temos de dizer, explicar, esmiuçar e arriscar. Se não o fizermos como damos as mãos sem medo? Como beijamos sem censura? Como constituímos famílias, se assim o quisermos?  Como construímos vidas confortáveis na nossa pele?

Imaginem que à vossa volta o ambiente só dava sinais de que estão errados, que não são aceites, e que a única forma de serem e explorarem quem são é em segredo, dentro de quatro paredes, no escuro. Simplificando, restam poucas alternativas: sermos quem somos em segredo e deixarmos a depressão tomar conta de nós, ou assumirmos o que somos com orgulho.

A honestidade de sermos quem somos publicamente, sem filtros nem máscaras é impulsionadora da mudança, o nosso ativismo constante. É dizer nós também existimos, e é sempre um convite à reflexão.

Acho que a minha mãe é um ótimo exemplo. Foi das últimas pessoas a saber. Quando lhe disse foi algo que lhe causou muito sofrimento, chorou por 3 dias. Analisando bem, nem ela sabia bem porque o fazia. Neste momento sei que ela não diria "se eu tivesse um filho gay, internava". O "adoro-te, filho" encerra os nossos telefonemas, e pergunta-me frequentemente como é que nós os 3 estamos. Ela sabe que não tem de concordar ou discordar, tem de viver e deixar viver. Reparem que não digo que trata melhor, mas trata igual, e esse tratamento vai expandir-se a outros. 

Para mim, foi saber que não o podia esconder de ninguém. Era o passo que faltava para ser livre. Para poder amar-me e amar. O meu corpo passou a pesar menos. Já podia dizer, pensar e escrever o que quisesse. Entendi que não precisava da aprovação de ninguém, mas que aprovar-me passava por ser transparente. 

As nossas sobrinhas, por exemplo, chamam-nos aos dois de tios, adoram-nos. Sente-se. Não estão preocupadas se não há uma tia. Com certeza não vão perpetuar certos preconceitos, nem educar, mais tarde, dessa forma. Comove-me, sim, pensar na sorte que tenho, prova-me que se formos honestos, desdramatizarmos e não educarmos para o preconceito, vamos sarando. 

Sempre que vou trabalhar num sítio diferente, chega-se a uma altura em que tenho de marcar posição, da partilha normal de vivências e ideias. Não é sempre ótimo, nem toda a gente reage bem, mas a tendência é isso dissipar-se, afinal não há problema, e temos de ser honestos, animamos qualquer escritório. 

Assim se diz ao mundo que existimos, que quem existe assim ou assado, o pode ser, à luz do dia. O que fazemos, dizemos, o que comemos e como tratamos os outros são formas de ativismo, impulsionadoras de transformações sociais. A luta não é dizer que somos mais, é dizer que não somos menos. Não é dizer que queremos mais direitos, mas que queremos os mesmos.

Só nos últimos anos da minha adolescência é que comecei a perceber que não estava sozinho. Passei de não ter referências nenhumas para encontrar o Brokeback Mountain numa prateleira de supermercado. Dos gays serem um nojo para podermos rir com o Modern Family. As pessoas começaram a contar aos pais e a mostrar ao mundo os seus coming outs. Agora, até o Goucha e o Rui podem ser um casal nas manhãs da TVI. 

Enquanto nos chegarem relatos de que uma transexual é espancada com um martelo no Brasil, banirem páginas de artistas que promovem a igualdade em Portugal, cortarem a garganta à alguém por ser gay na Argélia, e crianças estiverem a ter na escola uma experiência igual à minha na Madeira, temos de sair dos armários que nos construíram pelo mundo fora. Ao assumirmos a nossa verdade podemos ajudar o mundo a assumir-se, e assim reclamar espaço para todos.

05
Nov18

Somos o Suficiente

Leonardo Rodrigues

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Existem lugares dentro de nós que queremos fechados. A minha infância e adolescência estão repletas de eventos que se podem rotular de abandono, violência, medo e ódio. Tenho-me cruzado com imensa gente que também, à sua maneira, vivenciou eventos rotulados de forma semelhante. Se permitirem ouvir e falar vão descobrir que somos muitos. Ao final do dia, a aparente normalidade é geralmente a falta dela. É também possível que quem esteja a ler este post se reconheça em eventos destes.  

Estou, porque a vida me convidou, a fazer há vários anos um percurso de auto descoberta, perdão e confiança. Nem sempre falando com alguém. Olhar para os nossos pensamentos no papel, ensinou-me o meu querido amigo Emídio Carvalho - autor do blog A Sombra Humana - , são o nosso melhor aliado -  se os questionarmos, está claro. 

Graças a este Trabalho, sei que encontro no meu dia a dia menos situações em que possa encaixar rótulos outrora familiares. É libertador. Mas, como sabemos, nada é estanque e basta um novo evento tipo terramoto para mexer as areias que afinal são movediças. E quando achávamos que éramos quase o Buda, voltamos a descer à terra. Estou de volta ao trabalho há uns meses. São meses de não querer pensar o que penso nem sentir o que sinto. A nossa cabeça é poderosa ao ponto de fazer esta luta manifestar-se no corpo, germinar ansiedade e noites mal dormidas. 

Abandonei a ideia de ser uma vítima muito cedo, e este é o primeiro passo. Ainda assim, tenho vivido, ouvido e constatado que estes eventos e emoções cravam em nós uma ideia muito elementar, a de que não somos bons o suficiente. Pensem no que vos incomodou mais nas últimas 24 horas, vejam se bem questionado não retomam a esta ideia. Talvez sim, talvez não. 

Há uns dias, no trabalho, uma colega optou por partilhar comigo parte da sua história, e convidou-me a ouvir alguém que tem umas perspetivas interessantes sobre como estar na vida e olhar para o que passou. Chama-se Marisa Peer. Curiosamente, ao contrário de outros autores, ela não resumia a questão no bom e no mau. Mas na suficiência, a nossa. Na simplicidade do inglês, ela convida-nos a reconhecer e a familiarizar-nos com o seguinte: "I AM ENOUGH". 

Além de questionarmos o que surge na nossa cabeça, creio agora que é fundamental dar o passo seguinte,  criando novos percursos no nosso cérebro com informação que talvez não nos foi dada quando éramos mais novos, tal como "eu sou suficiente".

Este post é na verdade um convite a todos a reconhecer isso. Se hoje tivessem acordado com a certeza de que eram suficientes na vida, no trabalho, nas relações, como teria sido o vosso dia? Teriam sido mais simpáticos? Ouviriam mais? Soltariam a veia sarcástica? Sairiam mais? Teriam apresentado a rescisão? Seriam menos possessivos? Compreenderiam melhor? Seriam melhores amigos e namorados?

Não há melhor forma de sermos nós, de nos relacionarmos connosco e com outros do que quando estamos em plena consciência de que não somos nem mais nem menos, mas a dose certa. 

Um vídeo interessante abaixo: 

 

 

28
Out18

Confiança para andar de bicicleta

Leonardo Rodrigues

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Lamento já não ter a minha primeira bicicleta, e que as memórias sejam tão distantes. Foi-me oferecida por quem já não precisava dela, era branca, com manchas castanhas da ferrugem e tinha um porta bagagem que nunca utilizei. Embora não fosse tão moderna como a dos meus amigos, foi com ela que aprendi a ter a confiança para andar de bicicleta em estradas de terra batida, antes das obras desenfreadas do tio Alberto.
Quase duas décadas depois, e após vários anos em Lisboa a depender dos transportes públicos, decidi que estava na altura de comprar uma bicicleta e de voltar a algo que, até mesmo nós os portugueses, já não podemos ver como um meio exclusivamente de diversão. Esquecemos que esta é cada vez mais uma solução séria para a mobilidade quotidiana e, tal como quando era mais novo, resume-se a uma questão de confiança.
Com todas as limitações da cidade - que começam a ser menos - , e da nossa rede "pública" de bicicletas, aprendi a encontrar conforto das viagens de bicicleta que já se podem fazer em muitos pontos exclusivamente através da ciclovia. Sim, as ciclovias e os nossos passeios estão longe da perfeição, mas já é possível fazer uma viagem cómoda do Aeroporto até ao Marquês, quase sem perturbações.

As bicicletas públicas e as ciclovias transformaram a forma como os lisboetas, que se permitem a experimentar sair da arrogância do carro, se relacionam com a cidade. Se por um lado energiza-nos antes de chegar ao trabalho, por outro contribui para relaxarmos à saída, arejando a careca - basta dizer que não existe trânsito para os ciclistas. 

Depois de um mês neste regime, confesso que é mais fácil apanhar um pouco de chuva do que me permitir andar nos nossos transportes públicos saturados. Em horas de maior congestionamento é fascinante ver como tudo na ciclovia flui enquanto os condutores tradicionais estrebucham confinados ao trânsito. Demoro 13 minutos para um lado, 13 minutos para o outro.

Diria que o maior desafio é a forma como os condutores -  mesmo de autocarros e táxis - , apesar da sua responsabilidade, insistem em comportar-se. Parece que nesta cidade, talvez arrisque em Portugal inteiro, estamos todos contra todos - peões, condutores e ciclistas.

Temos de fazer as pazes, com respeito e soluções. Enquanto não vêm as infraestruturas que faltam, que pelo menos se respeite o código da estrada, se use as faixas apropriadas e que impere a boa educação. O resto seguirá. 

Todos sabem que andar de carro e de transportes públicos é mentalmente desafiante em Lisboa. Para os mais céticos relativamente a este veículo como meio de transporte principal, convido a pensarem-no como complementar, tanto aos autocarros como ao metro e ao comboio, e, até mesmo, às bicicletas elétricas públicas. Como é natural, eu também não encerro a minha mobilidade com as bicicletas - sei que pontualmente vou precisar de transportes públicos, de um Uber ou táxi e, fora do país ou da cidade, um carro.

Em suma, talvez a confiança não seja mais do que perceber que as bicicletas são o meio de transporte perfeito: limpo, rápido, seguro, de fácil manutenção e que promove a saúde - física e mental. Quanto a mim, de madrugada ou de noite, mesmo de fato e gravata, faça chuva ou faça sol, vou continuar estrada fora de bicicleta. Afinal, para a chuva existem capas.

 

20
Set18

As relações não são para fracos

Leonardo Rodrigues

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Quando se escreve para os outros sobre as relações é sempre mais fácil falar sobre o lado cor de rosa com flores amarelas, mas deixamos - eu inclusive - as escritas do outro lado, apenas para nós, porque nos ajuda. Nem sempre são um texto inteligível e de agradável leitura, e talvez porque na verdade ninguém tem nada com isso. 

Quem diz que é bem mais simples ser solteiro e perseguir todos os pensamentos que aparecem na cabeça, tem a sua razão. As relações amorosas, tal como as nossas amizades, são de alguma forma um compromisso - uma coisa inventada por estes mamíferos que andam de pé - , e esta palavra parece medonha. Este compromisso não é estático, é um negociar constante, um ajuste de ideias, pensamentos e vontades. As relações são o meio termo por excelência. 

Vão existir dias em que não sabemos o que estamos a fazer, que nos esquecemos o que nos apaixona. Esquecemos que concordamos mais do que discordamos. Que as grandes coisas que fizemos - e fazemos - juntos são substituídas por todas as coisas pequenas que estão por fazer. Embora não existam dias iguais, por vezes parecem e fundem-se. Se acreditávamos que existiam coisas imperdoáveis, enganamos-nos. Há dias em que parece ser mais fácil sair porta fora. Mas também já foi mais fácil comer com as mãos, e agora come-se com talheres. 

Ficamos, não só pelo conforto, mas pela lucidez do que queremos e do que nos importa, pelo amor, carinho e amizade - sem medo de estarmos a perder alguma coisa. Porque criámos um espaço que não existe em mais lado nenhum. Porque os corpos sabem encaixar-se de noite. Porque por vezes olhamos para certas coisas e só um tem de verbalizar o que pensamos. Pode-se chorar, rir, sentir dor, partilhar os maiores disparates que nos apoquentam a alma e podemos despir-nos de todas as formas. Afinal de contas, as relações só morrem quando escolhemos morrer para as mesmas, sem ressuscitar. 

Já todos sabemos que não fazemos ninguém inteiramente feliz, e que nada nem ninguém o poderão fazer por nós. Ninguém nos pertence - a Oprah tem razão, é uma corrida desnecessária. Contudo, quando nos permitimos desenvolver este tipo de ligações, há aspetos das pessoas que se tornam um, mantendo a sua individualidade. Os casais que se mantêm no século XXI são uma verdadeira proeza da evolução.

 

 

 

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