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LEONISMOS

LEONISMOS

27
Set17

Não temos de comprar tudo biológico


Leonardo Rodrigues

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Há uma  consciencialização cada vez maior dos efeitos que a alimentação pode ter na nossa saúde. Sabemos que consumir alimentos processados, com açúcar refinado e gorduras saturadas faz mal, contribuindo para doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes.

Há evidência científica que correlaciona o consumo de alimentos produzidos com pesticidas ao grande C. Acontece que a produção biológica continua a não ser acessível para todos os bolsos. 

No entanto, por ser uma boa tendência, e por haver cada vez mais procura, começa a haver muito mais oferta. O que é bom tanto para a nossa saúde, como para a do nosso planeta. 

Embora nem todos possamos comprar apenas biológico, podemos minimizar a quantidade dos pesticidas com "truques" simples como tirar a casca e lavar os alimentos com vinagre. Ou, se formos mesmo muito sortudos, fazendo crescer a nossa própria comida.

Segundo um estudo da EWG - Enviromental Working Group -, os seguintes alimentos, na sua lista anual, são considerados como mais limpos/seguros, mesmo quando não biológicos: milho doce, abacate, ananás, couve, cebola, ervilhas congeladas, papaia, espargos, mango, beringela, couve flor, meloa, kiwi, mamão e toranja.

Os menores vestígios de pesticidas explicam-se com a forma como crescem, a densidade da casca e a quantidade de pesticidas utilizada para este tipo de cultivo.

Cá em casa, acompanhado a crescente facilidade em adquirir produtos biológicos, uma boa gestão do orçamento e muita atenção aos preços, começamos a conseguir aumentar a fatia de biológicos consumidos, todos os meses. Lembrem-se que tendências de consumo definem o que será a oferta, baixando valores. 

 

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25
Set17

Entrevista a Ricardo Robles, candidato à CML


Leonardo Rodrigues

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Foto: Paulete Matos

 

Numa altura em que a geringonça política provou ser uma máquina que funciona, as eleições autárquicas ganham nova vida. E, por consequência, a mensagem torna-se mais difícil de distinguir, especialmente quando a Assunção troca as roupas de designer e o Mercedes, para se misturar com o povo de calças de ganga e bicicleta. São também lançadas ideias que vão além das 20 estações, por exemplo segregação nas carruagens do metro. Coisas de outros tempos. 

Numa procura por coerência, e por ser o primeiro ano em que vivo as eleições em Lisboa, decidi entrevistar o candidato que apoio, Ricardo Robles, do BE. Nesta entrevista, que pretende ser esclarecedora, o candidato dá-nos a conhecer a visão que tem para a cidade de Lisboa, percorrendo tópicos que são bandeira de campanha: habitação, transportes, precariedade e transparência. Houve ainda tempo para conversarmos sobre direitos, tanto de pessoas como de animais. 

 

Leonardo Rodrigues: Quem é Ricardo Robles, e porque podem os lisboetas confiar em ti?

Ricardo Robles: Nasci em Almada, sou Engenheiro Civil de profissão - especialista em reabilitação e eficiência energética -, activista, estive na fundação do Bloco de Esquerda. Nos últimos quatro anos fui líder da bancada do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Lisboa. O nosso mandato na Assembleia Municipal provou que o Bloco faz falta também na Câmara, e temos propostas que melhorarão a vida de quem cá vive e de quem cá quer viver. Creio que estes são os principais motivos pelos quais os lisboetas nos devem confiar os seus votos, seja na lista que  encabeço à Câmara Municipal de Lisboa, seja na lista à Assembleia Municipal, seja ainda nas listas de todas as freguesias de Lisboa. 

 

LR: Que rotinas tens, individualmente e em família, quando não estás em campanha para a maior Câmara do país?

RR: As rotinas são semelhantes às da maioria dos lisboetas: trabalho, família, amigos, lazer. Sempre que posso gosto de praticar desporto, sobretudo futebol com os amigos. Na fase da campanha algumas destas coisas ficam adiadas. 

 

LR: Enquanto lisboeta, a vida tem vindo a mudar para melhor ou pior?

RR: Haverá certamente aspetos em que a vida de quem vive em Lisboa - e de quem nos visita, já agora - melhorou, e outros em que piorou. Todos os que, como nós, gostam da democratização do turismo,  de ter uma cidade cosmopolita e aberta ao mundo, sentem que isso foi algo de muito bom para Lisboa. Faltou, no entanto, estar precavido para a outra face da moeda. A vida de quem cá vive piorou bastante no acesso à habitação, pois a procura de Lisboa, conjugada com a política dos Vistos Gold, provocou um aumento dos preços na habitação que, literalmente, expulsa os lisboetas de locais onde antigamente habitavam. A este respeito, não temos como não nos lembrar da Lei dos Despejos, lei essa que tem em Assunção Cristas a sua autora.  A mobilidade em Lisboa, nomeadamente a qualidade dos transportes, está também muito pior. O Governo PSD/CDS desinvestiu no Metro e na Carris para desvalorizar estas empresas públicas, preparando-as para uma entrega a privados. Este desinvestimento - que se deu ao nível de motoristas, comboios/autocarros/ elétricos, nas oficinas etc... - teve um impacto brutal que todos nós sentimos: aumento dos tempos de espera, carruagens e autocarros cheios e uma experiência terrível que todos sentimos no dia-a-dia.

 

LR: No teu entender, qual deverá ser o foco da CML no próximo mandato?

RR: As nossas prioridades estão bem definidas: habitação, transportes, luta contra a precariedade, e, por fim, mas muito importante, transparência. Acrescentando algo ao que já disse sobre habitação e transportes diria o seguinte: na habitação é necessário estancar a venda de património municipal, para que este possa ser colocado no mercado a preços acessíveis. Se tal for feito, não só temos habitação disponível a preços acessíveis, como o mercado poderá ver-se obrigado a baixar os preços que atualmente estão a ser praticados. Quanto aos transportes, bater-nos-emos contra a ideia da linha circular que Fernando Medina quer criar no Metro. Ao invés, a nossa proposta vai no sentido de estender a linha de Metro a zonas que não o têm, e falo da zona ocidental (Campolide, Campo de Ourique, Alcântara, Ajuda e Belém). Queremos tornar ainda Lisboa na cidade precariedade zero, pois não é admissível que a CML não valorize e não dignifique o trabalho. Os falsos recibos verdes têm de terminar, e a CML tem de privilegiar parceiros que respeitem a lei laboral. Quanto à transparência, e assim tenhamos força para tal, iremos pugnar por uma informação completa e exaustiva de todos os negócios que envolvam a CML. O BE, nestes últimos 4 anos, esteve na linha da frente da denúncia de uma série de decisões que nos levantaram dúvidas como p. ex. a adjudicação dos terrenos denominados como triângulo dourado, o conhecido processo do Hospital da Luz. Estas são algumas linhas gerais do nosso programa.

 

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LR: O que pode o Bloco de Esquerda fazer por Lisboa, e que o PS apenas prometeu? 

RR: Esta é uma questão muito importante. O PS está na CML há 10 anos - 8 com maioria absoluta - e há uma série de promessas adiadas. Há exemplos recorrentes, como corredor bus na A5, que todos os actos eleitorais vem à tona, mas que nunca foi cumprido; há exemplos que mostram a incapacidade do PS, como o de terem - e bem - levado a cabo um estudo para ver quantas creches eram necessárias e, depois desse levantamento ter sido feito, apenas terem criado 12 das 60 creches prometidas. Em conclusão, o PS assume-se nestas eleições com um discurso do "agora é que é", mas os lisboetas sabem que se 8 anos de maioria absoluta não tornaram as promessas realidade, não serão mais 4 que o farão. Esta é a prova que as maiorias absolutas, nas Câmaras como no País, não são benéficas para a população.

 

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LR: Antevês uma solução para o caos que diariamente os lisboetas enfrentam com a Carris e o Metro?

RR: Isso dependerá do resultado eleitoral. Se a escolha for dar força ao BE, cremos que é possível voltar a dar dignidade à Carris e ao Metro. Em ambos os casos, será necessário investir e tomar medidas que favoreçam a população. Aproveito para acrescentar mais duas propostas do BE que passam por baixar os preços dos bilhetes, para que seja possível recuperar os 59 milhões de passageiros que os transportes perderam;  e aumentar a frequência dos comboios e das carreiras - neste caso, estudando novas rotas – que é essencial para que as pessoas possam optar por não usar carro. 

 

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LR: O custo no acesso à habituação no concelho de Lisboa continua a ficar mais elevado, quer através do arrendamento quer através da compra. Como se devolve a cidade a quem já não a pode pagar? 

RR: A habitação é um dos maiores problemas em Lisboa. Já tive oportunidade de vos responder a algumas questões quanto a este problema, mas há mais a dizer. A CML tem direito de preferência sobre todas as transações sobre imóveis que sejam realizadas no Município. Este direito tem de ser exercido, para que, posteriormente, a CML possa colocar estas casas no mercado a preços acessíveis. Outra medida que é essencial passa por tornar obrigatório que quando um prédio em propriedade horizontal vai ser construído ou reabilitado, o construtor saiba que tem de deixar uma percentagem de fogos para habitação a custos controlados. Nós defendemos que seja pelo menos de 25%. Exemplificando, se se constrói um prédio com 100 fogos, 25 destes terão de ser reservados para habitação a custos controlados pela CML. Só assim é possível combater os desequilíbrios que temos sentido.

 

LR: O turismo, que tanto contribuí para os bons números da economia, está a mudar as nossas vidas, nem sempre para melhor. Temos de receber menos pessoas ou criar melhores condições para as receber, sem comprometer as de quem pertence à cidade? 

RR: O turismo é bom para a cidade de Lisboa, é bom para os lisboetas e, claro, é bom para quem nos visita pois tem acesso a uma cidade com uma riqueza ímpar, a todos os níveis. O tempo tem dado razão ao BE nesta questão, já que há 4 anos tínhamos a cobrança da taxa turística que é agora cobrada. O problema é que Fernando Medina entregou às entidades que exploram o turismo a gestão da verba que o Município cobra, isto é, tira com uma mão para dar com a outra. A grande diferença é que o BE propõe que a taxa turística sirva para minorar os efeitos do turismo, desde logo servindo para financiar a já referida habitação que será colocada no mercado a preços acessíveis. Propomos ainda que esta taxa turística seja aumentada para 2 euros por noite. 

 

LRMuitos jardins e espaços verdes em Lisboa, fora do sítios que inglês vê, estão entregues à sua sorte. Pode a câmara cuidar de todos?

RR: Pode e deve. É uma obrigação da CML zelar pela sua propriedade. A manutenção de alguns dos espaços verdes passaram para a responsabilidade das juntas de freguesia. Em ambos os casos a manutenção deve ser uma prioridade para que os lisboetas possam usufruir destes espaços.

Fugindo aqui ao âmbito da pergunta, mas uma vez que é colocada a função do Município como zelador do património municipal, queria referir o estado lastimável em que se encontram a esmagadora maioria dos bairros municipais. Temos conhecimento de muitos elevadores que não funcionam - deixando as pessoas de mobilidade reduzida presas em casa ou dependentes de familiares -, pequenos reparos que ficam por fazer, a limpeza nestes bairros é descurada. A CML não pode ser o pior dos senhorios. No outro dia, em visita a um destes bairros, uma senhora contou-me que foi à Gebalis pedir para que esta assumisse a pintura de uma zona da sua casa que estava degradada e aquela empresa disse-lhe que levasse ela as tintas e pintasse. É um caso, como tantos outros, que revela que algo tem de mudar. 

 

LR: Com uma câmara liderada pelo BE, continuaria o Terreiro do Paço a ser cedido à ILGA para o Arraial Pride, nos atuais moldes? 

RR: O Bloco de Esquerda estará, como sempre esteve, na linha da frente no apoio aos direitos LGBTI. Como tal, o BE valoriza todas formas que sirvam para cristalizar estes direitos na nossa sociedade. O Arraial Pride continuará a realizar-se - podendo a CML aprofundar a forma de colaboração, garantindo, p.ex., um protocolo de cedência do espaço por 5 anos -, mantendo-se, igualmente, o Festival Queer, a Marcha do Orgulho LGBTI sendo que, também nestes casos, o caminho é aprofundar formas de colaboração. É importante garantir o apoio da CML às associações que se envolvem na preparação e realização destes eventos.

Todas as formas de combate à descriminação, onde se inclui também, por exemplo,  Festival da Diversidade, contarão com o apoio do Bloco de Esquerda, afinal, esta é uma das nossas matrizes identitárias.

 

LR: Continuam a existir na cidade situações em que grupos LGBTI são vítimas de algum tipo de violência. Pode também uma câmara educar, para promover igualdade entre todos e combater o bullying?

RR: Claro que sim. Sabemos bem que as alterações legislativas são importantes, mas não são suficientes. Há um caminho que começou a ser percorrido, mas que ainda tem estrada para andar. Esperando que todos os tipos de violência sejam julgados e condenados, a CML tem de fazer o que lhe compete para promover a igualdade e os direitos LGBTI. O Bloco de Esquerda defende a abertura de um Centro Municipal de Acolhimento e Cidadania LGBT+. Um espaço que defenda e promova os direitos humanos e que ajude  e albergue vítimas de discriminação e violência, preste apoio social e psicológico e disponibilize aconselhamento jurídico.

 

LR: Em 2017, têm as touradas lugar numa cidade como Lisboa?

RR: Não. Uma CML liderada pelo BE não apoiará qualquer atividade tauromáquica. No nosso programa assumimos explicitamente um compromisso de não autorização de espetáculos com animais. A associação de Turismo de Lisboa, que é presidida pelo presidente da Câmara Municipal, não deve associar-se a espetáculos com animais nem participar na publicitação dos mesmos.

 

LR: Para terminar, com tópico dos animais, a atual câmara parece impotente no que diz respeito a animais sem lar. Que sugeres para melhorar a qualidade destes coabitantes?

RR: Nesta campanha, já tive oportunidade de visitar a Casa dos Animais, o LxCRAS e de intervir em vários debates sobre os direitos dos animais. A Casa dos Animais de Lisboa (CAL), o centro de recolha oficial, é responsabilidade direta da Câmara Municipal. Nos últimos anos estas instalações melhoraram com algumas obras, fruto da pressão cidadã, mas continuam a ser insuficientes para garantir o bem-estar dos animais da nossa cidade. A Casa dos Animais está sobre lotada e fecha as portas quando os munícipes pedem ajuda para que acolha e trate animais. Tal não pode acontecer, pelo que a CAL tem de estar aberta 24 horas por dias, sete dias por semana.

Iremos igualmente lutar por campanhas de esterilização e adopção, sendo que só assim poderemos garantir o bem estar animal, bem como ir diminuindo o número de animais errantes.

Uma palavra final para a figura do/a provedor/a dos animais. Este papel terá de se assumir como verdadeiramente independente e com meios que lhe permitam exercer a sua função. Defendemos também que o/a provedor/a não seja encontrado/a por meio de nomeação política, mas sim através de uma eleição. 

LR: Obrigado!

 

Seja qual for a vossa cor política, votem sempre!

 

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15
Set17

Alzheimer: viver sem a memória de quem somos


Leonardo Rodrigues

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Ter Alzheimer é o mesmo do que viver sem termos bem consciência de quem somos, apenas do que fomos.

Foi isso que senti ao ver a senhora a quem aprendi a chamar de avó, embora não o fosse biologicamente, na minha última visita a casa. Vi-a, sem exagerar, quase diariamente durante 18 anos.

Antes de me mudar, presenciei um momento inicial da sua perda de lucidez, ainda não tinha feito noventa. Estávamos a contar dinheiro e ela encontrou uma moeda estrangeira, fazendo questão de o referir com entusiasmo. Depois, voltámos a contar o dinheiro e, assim que chegámos à tal moeda, aconteceu novamente. Aconteceu uma terceira vez. Coloquei a moeda de lado, e fizemos uma última contagem.

É avassalador ver a nossa avó assim. A senhora que tomou conta de nós, que nos via à distância, que nos contava histórias - que não tivessem de ser censuradas - com tamanha lucidez e detalhe que era o mesmo que recuarmos a outra época, e ver a nossa terra quando tudo era diferente. 

Agora é muito isso que resta, o passado. Estivemos a ver dois dos meus álbuns, mesmo sem que ela tivesse bem a consciência de quem era. Por vezes dizia, este é o Leonardo. Outras, este és tu, não és? E, olha, esta sou eu, verdade? Com uma inocência e doçura nos seus lindos olhos azuis. O seu cabelo cinzento e olhos azuis são coisas que nunca mudaram.

Em vez de estar a reconhecer uma moeda diferente, ela estava a fazer um esforço para conhecer caras que viu durante 50, 20, 30 anos.

E depois lembrei-me que, quando estava no 10º ano, pensei que seria bom escrever um livro sobre a vida daquela Mulher. Mas isso foi impossível, ela não conseguia falar na presença de um gravador ou de um bloco de notas e caneta. E eu nunca tive a memória dela. 

Mas há uma história que, para mim, merece ser partilhada. Quando ela era mais nova, as escolas dos meninos e das meninas eram separadas por alguns quilómetros, naquela terra. E não é que eles não tivessem um olho apurado, tinham mais ainda. Sempre que passavam ao lado da escola, começavam a gritar "Maria Isabel vai casar com o doutor Abel", todos os dias, deixando a minha avó corada. E isso aconteceu. Ela esperou que ele regressasse da tropa, tiveram vários filhos e sempre acolheram toda a gente que por aquela casa passasse. Só a morte os conseguiu separar.

Depois de cuidar de tanta gente, eu inclusive, chegou à altura de cuidarem dela, mesmo que nem sempre saiba o que acontece. Ainda faz ponto cruz, sabe a tabuada, canta as músicas que louvam Salazar e continua a querer ir à missa. Sempre que é fim de semana, e a filha diz que vão à terrinha, vai logo fazer a mala.

E eu despeço-me, sempre consciente de que ela já não sabe quem sou, com memórias que cheiram a bolos, milho e vindimas. 

 

 

13
Set17

E se o seu filho quiser experimentar um vestido?


Leonardo Rodrigues

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A resposta mais simples de todas é: pode ser que, noutra vida, tenha sido escocês. 

Porquê é que eu me lembrei de escrever tal coisa? Ora, uns pais no Reino Unido retiraram o seu filho da escola porque outro aluno, com 6 anos, foi autorizado a usar vestido. Acham que a escola os deveria ter consultado, acerca da vida de alguém que não está a seu cargo.

Muitas crianças, por todo o mundo, sentem que nasceram num corpo errado. Isto não tem nada que ver com orientação sexual. Por exemplo, pode haver alguém no corpo de uma rapariga, que sinta que é um homem, e que goste de mulheres. Aqui, mesmo necessitado de uma mudança, é heterossexual. 

E, por muito que nos custe a perceber, pode não ter nada que ver com isso. Pode simplesmente preferir usar um vestido, sem isto carecer de psicanálise. Realmente, e não me acusem de politicamente correto, se uma mulher pode usar calças, porque não pode o homem usar um vestido ou saia, se assim entender?

Quando era mais novo, lembro-me de dois dias em que experimentei coisas de senhora. Vesti um vestido, calcei uns saltos e pintei-me, ou borrei-me, de maquilhagem. Noutro, depilei tudo, até as sobrancelhas. Não tinha esta referência da minha mãe, ela apenas tinha os sapatos de salto guardados, nunca usou a bendita maquilhagem, com muita pena minha. Eventualmente, começou a pedir-me que lhe tratasse da manicura e, isso sim, foi um tiro pela culatra. 

A verdade é que quando vi o resultado não gostei, continuava a identificar-me com as roupas de sempre. Se tivesse sido doutra forma, acho que não haveria ninguém capaz de lidar com isso à minha volta, o que teria tornado tudo ainda mais complicado. 

Será que temos mesmo de ensinar a complicar a vida dos outros? Quando digo complicar, não estou a colocar em pé de igualdade o sentido crítico. Devemos questionar o que nos rodeia, e procurar saber mais. Nunca escolher isolar-nos a nós, ou outros, de uma questão que merece ser compreendida. Desconstruir, desconstruir, desconstruir. 

Para responder, pelo menos hoje, a uma questão que coloco aos outros, se o seu filho quiser experimentar um vestido, tem que agir com a naturalidade com que o deixa brincar com um carro, ou permite que leve a camisola azul para a escola novamente. Ninguém fez nada errado, apenas vamos todos crescer para ser o que sempre fomos, e é mais fácil se houver sempre apoio.

 

Deixo-vos a entrevista com os pais, à BBC:

 

 

 

12
Set17

Passatempo: 2 convites duplos para o Festival de Cinema Queer 21


Leonardo Rodrigues

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Não é segredo, nem foi, que o Festival de Cinema Queer estará em breve de volta ao São Jorge. Algo que é, para muitos, a semana de overdose visual e cultural mais aguardada do ano.

Este ano são 90 filmes, de 32 países. Para tornar este regresso do Festival ainda melhor, uni-me ao Queer para oferecer, por agora, 2 convites duplos - há mais, em breve - para "Homogeneous, Empty Time", a estrear dia 20 de setembro. 

Esta longa metragem de Thunska Pansittivorakul e Harit Srikha é, de certa forma, um regresso à violência, procurando a fundação da Tailândia enquanto nação. Fá-lo, confrontando várias realidades, quer do aluno do secundário, quer de líderes de uma direita saudosista. Às tensões entre muçulmanos, por exemplo, teremos acesso através de um olhar de um casal de lésbicas. Além do contexto político de uma nação fragmentada, iremos aceder ao lado místico, dos fantasmas que pairam na vida de muitos.

 

 

Como ganhar os convites:

1 - Colocar gosto na página do blog, aqui

2 - Comentar, no Facebook, a publicação do passatempo com o nome de quem levariam convosco, aqui.

3 - Partilhar a mesma de forma pública. 

 

Vejam, ainda, o trailer do festival:

Nota: Sendo um filme para maiores de 16 anos, não serão aceites participantes de idade inferior. Apenas serão consideradas válidas as participações que cumpram os requisitos acima indicados. A cada uma será atribuído um número. Posteriormente, serão escolhidos dois números através do random.org, que irão ser contactados via mensagem privada no dia 18-9-2017. Os bilhetes destinam-se exclusivamente a esta sessão, não podendo haver troca nem convertê-los em dinheiro. 

08
Set17

Objetos onde vivem histórias


Leonardo Rodrigues

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Quando era mais novo, pensava que o mundo possuía mais magia do que agora. Acreditava, entre muitas coisas que lá descobri não serem verdade, que os meus peluches, embora não me respondessem, eram dotados da capacidade de ouvir e sentir.

Justificava o facto de não se mexerem, nem produzirem som com o processo de fabrico. Mas claro que o coelho azul que me fazia companhia tinha, de alguma forma, o sopro da vida lá dentro. Claro que lhe podia confidenciar o que me inquietava, num mundo que nunca chegaria a perceber. Ainda mais natural era pedir desculpa quando tinha sido injusto, não havia culpa nele. O mesmo para as árvores, e assim por diante.

Por algum motivo, comecei a lembrar-me disto ontem, quando finalmente consegui instalar este candeeiro turco que comprámos em Istambul. Vê-lo aceso trouxe-me de volta à loja, que se encontrava numa rua ladeada por árvores bem verdes. Lá quase só se vendiam candeeiros e sabonetes artesanais. Que raio de combinação, pensei eu!

Mas não é apenas isso, o rapaz que nos vendeu o candeeiro, quase à hora do sol se pôr, era sírio. Falava um inglês que se aprendia ao ritmo lento do turco, mas que fora suficiente para termos uma conversa que vou guardar para sempre. Disse-me que a vida no país que ama acabou e que, embora a família ainda lá esteja, sente-se otimista com o novo começo, num país cheio de cor e vida. Prova disso foi ter-me dito baixinho, como se fosse para Alá não ouvir, que tinha fumado, embora não tivesse violado o jejum da comida - mandatório durante o Ramadão. Claro que não percebi esta escolha, mas não me cabia a mim questioná-la. Como me disse, era a vontade inquestionável de Alá.

Neste candeeiro que agora vai ser aceso todos os dias guardo a viagem, as pessoas e as emoções que tudo me trouxe. Por isso acumulamos coisas. Afinal os objetos realmente têm vida, mas que depende de nós e das histórias e emoções que neles depositamos.  É tudo sempre nosso.

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